No último episódio da quinta temporada de LOST, o personagem misterioso Jacob aparece lendo Everything That Rises Must Converge, escrito por Flannery O’Connor nos anos sessenta. Como qualquer um, fiquei curioso para saber qual o sentido de sua presença na trama, se é que haveria um. Encontrei o texto original e resolvi traduzi-lo. É um conto bastante forte e — independente do significado que possa ter levado para a série de TV — faz pensar sobre os conflitos de valores que todos temos e a carga que sofremos por não considerá-los tanto como deveriam ser. É uma tradução livre, literal na medida do possível, pois decidi ser mais fiel à lição de moral insinuada pelo original que fazer uma versão pura e simples. Se deixei passar algo importante, me avise. Enjoy it.

Tudo que sobe, desce.

 Flannery O’Connor

 

O médico tinha dito à mãe de Juliano que ela devia perder quinze quilos a fim de controlar a pressão sanguínea, por isso, toda quarta à noite Juliano tinha de acompanhá-la de ônibus até o centro da cidade para assistir as reuniões dos vigilantes do peso. As reuniões eram preparadas para mulheres com mais de cinquenta anos que pesassem entre setenta e noventa quilos. Sua mãe era uma das mais magras, mas dizia que mulheres jamais deviam revelar a idade ou o peso. Ela não pegava ônibus sozinha à noite desde que haviam sido integrados negros e brancos em um mesmo ônibus, e como ir às reuniões dos vigilantes do peso era um de seus prazeres, bom para sua saúde e seu lazer, ela dizia a Juliano que ele podia ao menos levá-la, afinal, após tudo que ela já havia feito por ele… e assim, toda quarta-feira ele se conformava e a levava.

Ela estava quase pronta para ir, parada em pé em frente ao espelho da sala, colocando o seu chapéu enquanto ele, com as mãos atrás das costas, parecia pregado no batente da porta, esperando ser atingido por flechas como na imagem de São Sebastião. O chapéu era novo e havia custado sete dólares e meio. Ela ficava dizendo, “Acho que eu não devia ter pago tanto por ele. Não, não devia. Vou tirar e devolver amanhã. Eu não devia tê-lo comprado”. Juliano olhava para o alto. “Sim, você devia ter comprado sim”, ele respondia. “Ponha logo e vamos.”

Era um chapéu horrível, uma faixa de veludo lilás caía de um lado e subia no outro, o resto era verde e parecia uma almofada com o recheio saindo para fora. Ele achava que era menos engraçado que desajeitado. Tudo que agradava a ela era sem valor e, por isso, o deprimia. Ela levantou o chapéu mais uma vez e o encaixou no topo da cabeça. Duas asas de cabelos brancos se levantaram em cada lado da testa florida, seus olhos azul-céu ainda pareciam inocentes e intocados pela experiência como quando ela tinha dez anos. Não fosse ela a viúva que lutou para alimentar, vestir, colocá-lo na escola e ainda o ajudava, “até se aguentar sobre os próprios pés”, ela seria uma menininha que ele tinha de levar à escola.

“Tá certo, tá certo,” ele disse. “Vamos.” Ele abriu a porta e se adiantou na calçada à sua espera. O céu estava ficando escuro e as casas nas ruas ainda mais, parecendo monstruosidades pontudas de uma feiura única, cada uma diferente da outra. O lugar havia sido um bairro da moda quarenta anos atrás, e sua mãe insistia em achar bom ter um apartamento por ali. Cada prédio tinha um grande colar de sujeira em torno, onde crianças encardidas se sentavam de  vez em quando.

Juliano caminhava com as mãos nos bolsos, cabeça abaixada para a frente e olhos fixos, determinado a ficar totalmente desligado o tempo todo que durasse seu sacrifício em nome da diversão dela. Fechou a porta e se virou para ver a figura gordinha embaixo do chapéu atroz na sua frente. “Bem,” ela disse, “só se vive uma vez e paguei apenas um pouco a mais, pelo menos não vou precisar ter o trabalho devolver.” “Algum dia eu vou ganhar dinheiro.” Juliano disse melancolicamente – ele sabia que nunca iria – “e você vai poder comprar o que bem quiser.” Mas antes precisavam se mudar.

Ele imaginou um lugar em que os vizinhos mais próximos estariam a mais de um quilômetro de distância. “Acho que você está indo bem,” ela disse, enquanto colocava as luvas. “Você saiu da escola faz um ano. Roma não foi construída em um dia.” Ela era um dos poucos membros do grupo de vigilantes de peso que chegava de chapéu e luvas, e que tinha um filho universitário. “Leva tempo,” ela disse, “e o mundo está uma confusão.  Este chapéu fica melhor em mim que em qualquer outra pessoa, mas quando me trouxeram eu avisei, ‘pode levar de volta, não quero isso na minha cabeça,’ e a vendedora respondeu, ‘Espere até ver em você,’ e quando ela o colocou em mim, eu disse, ‘Bem..’ A vendedora aproveitou, ‘Se me perguntassem, este chapéu fica bem em você e você fica bem com ele, e mais’, ela continuou, ‘com ele você nem vai pensar em devolver, não vai se arrepender.’”

Juliano pensou que poderia ter se tornado um sujeito mais firme se ela tivesse sido uma mãe egoísta, uma velha bêbada que gritasse com ele. Ele continuou andando, cheio de depressão, com se no meio do martírio tivesse perdido a fé. Percebendo sua cara comprida, irritada e sem esperança, ela parou de repente olhando-o com gravidade, puxando seu braço. “Espere por mim,” ela disse. “Eu vou voltar pra casa e tirar isso, amanhã eu o devolvo. Eu estava fora de mim. Eu posso pagar a conta da luz com o dinheiro deste chapéu.” Ele segurou seu braço. “Você não precisa devolver,” ele disse. “Eu gosto dele.”

“Bem,” ela disse, “Não acho que eu devia…” “Fique quieta e curta o seu chapéu,” e emudeceu, mais deprimido que nunca.

“Com a bagunça que existe no mundo,” ela disse, “é uma maravilha poder curtir alguma coisa. Eu lhe digo, a gente nasceu com a bunda virada pra lua. Juliano suspirou. “Claro, se você sabe quem é, pode chegar onde quiser.” Ela dizia isso toda vez que ele a levava às reuniões dos vigilantes do peso. “A maioria das pessoas lá não é o nosso tipo de gente, mas eu sou educada com todas. Eu sei quem eu sou.” “Eles não dão a mínima pela sua educação,” Juliano respondeu rispidamente. “Saber quem você é foi bom há muito tempo atrás. Você não tem ideia onde está e quem você é.”

Ela parou e o encarou. “Claro que sei que sou. Você é que não sabe quem é, tenho vergonha de você falar assim. “Que saco,” ele disse. “Seu bisavô foi um governador,” ela disse. “Seu avô foi um próspero proprietário de terras. Sua avó foi uma rainha da alta sociedade. “Você consegue olhar à sua volta,” ele respondeu nervoso, “e ver onde estamos?” e abriu seus braços indicando as casas da vizinhança, cada vez mais escuras e, ao menos, parecendo menos sujas. “Você conserva quem você é,” ela disse. “Seu trisavô tinha uma plantação e duzentos escravos.”

“Não existem mais escravos,” respondeu irritado. “Eles estavam bem melhor quando eram,” ela disse. Ele gemeu ao perceber que ela ia começar tudo de novo, feito um caminhão ladeira abaixo. Ele já conhecia cada parada, cada buraco no caminho, e sabia exatamente que ela chegaria com toda a pompa no final: “É ridículo. Simplesmente não é realístico. Eles podem ser livres, nada contra, mas no lado da cerca deles.”

“Vamos esquecer isso,” Juliano disse. “Sabe de quem eu sinto pena mesmo,” ela continuou, “são aqueles meio brancos. É muito triste. Vamos parar por aqui?”

“Imagine se a gente fosse mestiço. Nós teríamos sentimentos confusos.

“Eu tenho sentimentos confusos agora,” ele gemeu.

“Tá bom, vamos falar de coisas mais agradáveis,” ela disse. “Eu me lembro do vovô quando eu era menina. Nossa casa tinha escadas duplas para o segundo andar – a cozinha ficava no primeiro. Eu costumava ficar na cozinha por conta do cheiro de comida nas paredes. Eu sentava com meu nariz encostado nelas e inspirava profundamente. De verdade, a casa pertencia aos sogros dele, mas seu avô pagou a hipoteca e, praticamente, virou o dono. Eles ficaram sem nada, mas jamais esqueceram quem eram.”

“Sem dúvida, aquela mansão decadente ajudava a se lembrarem,” Juliano resmungou.

Ele nunca falava nisso sem descaso ou sem sentir falta lá no fundo. Ele a tinha visto uma vez quando criança antes de ter sido vendida. As escadas duplas tinham ficado sujas e quebradas. Negros estavam morando ali. Mas ela vivia em sua lembrança e sua mãe sabia disso. A casa aparecia em seus sonhos de vez em quando. Ele se via no alpendre, ouvindo o vento entre as árvores, e andando sob o teto alto da sala de visitas, olhando os tapetes gastos e descoloridos. E parecia que era ele, e não ela, quem mais teria apreciado tudo isso. Ele preferiria aquela elegância banal a qualquer coisa parecida com o bairro onde viviam – e ela nem notava a diferença.

Ela se referia à própria insensibilidade como “sou uma pessoa adaptável”.

“E também me lembro da minha velha e escurinha babá, a Carolina. Não havia melhor pessoa no mundo. Eu sempre tive um grande respeito pelos meus amigos de cor,” ela disse.” Eu faria qualquer coisa por eles e eles fariam…”

“Pelo amor de deus, vamos mudar de assunto?” Juliano  disse.

Quando fosse pegar o ônibus, faria questão de sentar ao lado de um negro, para compensar os pecados de sua mãe.

“Você está muito sensível hoje, ela disse. “Está se sentindo bem?”

“Sim, estou,” ele respondeu. “Vamos andando.”

Ela apertou os lábios. “Você está com muito mau humor,” observou. “Nem vou mais conversar com você.”

Eles chegaram no ponto de ônibus. Não havia nenhum ônibus à vista e Juliano, ainda com as mãos presas nos bolsos e a cabeça para frente, olhou carrancudo a rua vazia. A frustração de ter de esperar o ônibus tanto como ter que pegá-lo começou a arrepiar sua nuca como se a mão de um morto a tocasse. A presença de sua mãe o chateava ainda mais quando ela suspirava. Ele a olhou friamente. Ela se mantinha muito ereta debaixo daquele chapéu ridículo como se ele fosse uma bandeira de dignidade imaginária. Havia nele uma vontade odiosa de baixar a bola dela. Ele repentinamente resolveu tirar a gravata e a guardou no bolso.

Ela soltou um suspiro. “Por que você tem de ficar assim quando me leva para a cidade? ela disse.

“ Por que você quer me deixar sem jeito assim?”

“Se você nunca entender onde vivemos,” ele disse, “você nunca vai entender quem eu sou.”

“Você parece um brutamontes,” ela disse.

“Então serei um”, ele murmurou.

“Eu vou para casa,” ela disse, “não quero chatear você. Se você não pode fazer um simples favor assim para mim…” Revirando os olhos, ele colocou a gravata de volta. “Minha classe está restaurada,” ele resmungou, olhou diretamente para ela e sibilou, “A verdadeira cultura está na mente, na mente,” ele disse, e bateu a mão na própria testa, “na cabeça.”

“Está no coração,” ela respondeu, “e em como você faz as coisas, e você faz as coisas do jeito que você é.”

“Ninguém no maldito ônibus sabe quem você é.”

“Eu cuido de quem eu sou,” ela disse gelidamente.

O ônibus iluminado apareceu no horizonte e se aproximou, eles mudaram de calçada para ir ao encontro dele. Ele pôs a mão sob o cotovelo dela e a apoiou para que subisse no degrau que rangeu sob seu peso. Ela entrou com um sorrisinho no rosto, como se estivesse entrando numa sala onde todos a esperassem. Enquanto ele entregava as passagens, ela se sentou sobre um dos bancos da frente com lugar para três, voltado para o corredor do ônibus. Uma mulher magra com dentes saltados e cabelos amarelos e longos estava sentada na ponta. Sua mãe se sentou ao lado dela e deixou um lugar para Juliano ao seu lado. Ele sentou, olhou o chão do corredor e viu um par de pequenos pés em sandálias pintadas de vermelho e branco. Sua mãe na mesma hora começou uma conversa para atrair qualquer um que estivesse a fim de conversar.

“Poderia estar fazendo mais calor?” ela disse enquanto tirava da bolsa um leque preto com um desenho japonês, e começou a se abanar com ele.

“Até podia,” disse a mulher com dentes saltados, “mas só sei que no meu apartamento não poderia estar mais quente.

“Deve ser o sol da tarde,” sua mãe disse. Ela se esticou para a frente e olhou o ônibus de ponta a ponta. Tinha pouca gente. Todo mundo era branco. “Eu vejo que temos o ônibus só pra gente.” Juliano fechou a cara. “Pra variar um pouco,” disse a mulher da frente, a dona das sandálias vermelhas e brancas. “Eu vim num outro dia que parecia uma lata de sardinhas, lotado de cabo a rabo.”

“O mundo está uma bagunça em todo lugar,” sua mãe disse. “Eu não sei como nós vamos consertar isso.”

“O que me incomoda mais são aqueles meninos de boas famílias roubando pneus de carros,“ disse a mulher com dentes saltados. “Eu falei para o meu filho, você pode não ser rico mas foi criado certo e se alguma vez você for pego numa coisas dessas, vou deixar levarem pro reformatório. Onde você pertence.”

“Bom conselho,” disse sua mãe. “Seu menino está na escola?”

“Ensino médio,” a mulher respondeu.

“Meu filho acabou a faculdade ano passado. Ele que ser escritor mas está vendendo máquinas de escrever até conseguir começar, ” disse a mãe de Juliano. A mulher se estendeu para a frente e mediu Juliano. Ele atirou de volta um olhar de ferocidade que a fez recuar de volta no banco. No chão do ônibus havia um jornal abandonado. Ele levantou e o pegou para abri-lo na frente dele. Sua mãe continuou a conversa em um tom mais baixo mas a senhora da frente disse em voz alta, “Tá legal. Vender máquinas de escrever está bem perto de escrever. Ele pode pular direto de um emprego para outro.”

“Eu digo pra ele,” falou a mãe, “que Roma não foi construída em um dia.”

Atrás do jornal Juliano havia se trancado num canto de sua mente onde passava a maior parte do seu tempo. Era uma espécie de bolha mental que ele havia inventado quando não conseguia suportar o que estivesse acontecendo em sua volta. De onde estava podia ver e julgar mas estava seguro contra qualquer invasão sem permissão. Era o único lugar em se sentia livre da burrice dos outros. Sua mãe nunca havia entrado, mas dali ele podia vê-la com absoluta claridade.

A velha senhora era muito esperta e ele sabia que se ela começasse com as premissas certas, muito mais podia se esperar dela. Ela vivia de acordo com as leis de seu próprio mundo de fantasia do qual ele nunca a havia visto sair. A primeira lei era sacrificar-se por ele de acordo com o que ela havia inventado como necessário a fazer. Se ele permitira os sacrifícios dela, era só pelo fato de que ela os havia tornado necessários.

Toda a vida ela tinha lutado para agir de acordo com sua “classe social”, a dos Castanheiras, e dar a ele, Juliano Castanheira, tudo que ela pensava que ele devia ter mesmo sem os bens que um dia sua família possuíra; mas ela dizia, então, que era divertido lutar, por que reclamar? E quando ele tivesse vencido, como ela vencera, seria bom olhar para os velhos tempos! Ele não podia perdoar que ela tivesse gostado de sofrer e achasse que tivesse vencido.

O que ela queria dizer quando falava que tinha vencido era repetir para ele várias vezes que tinha conseguido mandá-lo para a universidade e que tinha se tornado muito bonito (ela deixara de tratar os próprios dentes e assim ele pôde usar aparelho), inteligente (ele descobriu que era muito inteligente para fazer sucesso), e com um futuro à frente (mas era evidente que não havia nenhum). Ela justificava sua tristeza porque ele ainda estava em fase de crescimento, e suas ideias radicais, pela falta de experiência. Ela dizia que ele não sabia nada da “vida”, que ele ainda não havia entrado no mundo real – quando na verdade ele já estava desencantado com ela como se fosse um homem de cinquenta.

A maior ironia era que a despeito dela, ele tinha se dado bem. Mesmo saindo de uma faculdade de terceira classe, ele tinha conseguido por si mesmo correr atrás de uma educação de primeira classe. Mesmo crescendo subordinado a uma mente pequena, ele tinha se tornado um adulto com uma grande mente, mesmo com todas as bobagens de sua mãe, ele estava livre de preconceitos e não temia enfrentar os fatos. O melhor de tudo, em vez de estar cego de amor por ela, como ela estava por ele, ele havia cortado todos os laços emocionais e podia vê-la com toda a objetividade. Ele não era dominado por sua mãe.

O ônibus parou com um solavanco que o tirou da sua meditação. Uma mulher que vinha acelerada do fundo do ônibus quase escapou de cair sobre seu jornal enquanto se equilibrava. Ela saiu e um grande afroamericano entrou. Juliano abaixou o jornal para espiar. A sua leitura o fazia sentir uma certa satisfação por ver a injustiça no seu trabalho diário e fortalecia sua opinião de que, com poucas exceções, não havia nada pra se saber de bom num raio de quinhentos quilômetros.

O afroamericano estava bem vestido e carregava uma valise. Ele olhou em volta e então se sentou na outra ponta do banco onde estava a mulher com sandálias vermelhas e brancas. Imediatamente ele abriu um jornal e se escondeu atrás dele. A mãe de Juliano cutucou suas costelas com seu cotovelo. “Agora você sabe porque não entro nesses ônibus sozinha,” ela sussurrou. A mulher de sandálias americanas havia levantado ao mesmo tempo que o afroamericano havia se sentado e ido para o fundo do ônibus, sentou no lugar da mulher que tinha saído e ganhou um olhar de aprovação da mãe de Juliano.

Juliano se levantou, atravessou o corredor e se sentou no lugar deixado pela mulher de sandálias americanas. Dessa posição ele olhou serenamente para sua mãe cuja face ficou vermelha de raiva. Ele a encarou, fazendo parecer um olhar de um estranho. Ele gostou da tensão quando se levantou e declarou a guerra com ela.

Ele teria gostado de conversar com o afroamericano sobre arte e política ou qualquer outro assunto que estivesse acima da compreensão de qualquer um em volta, mas o homem permanecia entrincheirado atrás de seu jornal. Ele estava ignorando a troca de assentos ou nem havia notado. Não havia jeito de Juliano chamar sua atenção. Sua mãe mantinha os olhos fixos de reprovação sobre ele. A mulher de dentes saltados o olhava como se estivesse vendo um monstro diante dela.

“Você tem fogo?” ele perguntou ao afroamericano.

Sem tirar os olhos do jornal, o homem enfiou a mão no bolso e lhe entregou uma caixa de fósforos.

“Obrigado,” Juliano disse. Por um momento ele segurou a caixa de fósforos com alegria. Um aviso de Proibido Fumar olhava desde a porta da frente. Isso apenas não o deteria, ele não tinha cigarros, havia parado de fumar meses atrás porque estava ficando caro para ele.

“Desculpe,” ele resmungou e devolveu a caixa de fósforos. O afroamericano abaixou o jornal e lhe deu um olhar de aborrecido. Ele pegou a caixa e voltou a ler o jornal. Sua mãe continuava a encará-lo mas não tirou vantagem de seu momento de desconforto. Seus olhos se mantinham vidrados. Sua face parecia estar vermelha demais, como se sua pressão sanguínea tivesse subido. Juliano não se permitiu mostrar qualquer reação. Tendo conseguido a vantagem, ele queria de todo jeito mantê-la e tirar proveito dela. Ele gostaria de ensinar à mãe uma lição que ela guardaria por um bom tempo, mas não havia como continuar.

O afroamericando se recusava a sair de trás do seu jornal. Juliano cruzou os braços e olhou fixo para a frente, encarando sua mãe mas como se ela não estivesse ali, como se ela não existisse. Ele imaginou a cena, o ônibus teria chegado ao seu destino, ele ficaria sentado enquanto ela perguntava, “Você não vai sair?”, ele a olharia como um estranho incomodado por alguém se dirigir a ele de forma desrespeitosa.

A esquina onde desciam era deserta mas bem iluminada, e ela não se machucaria na caminhada de quatro quadras até o vigilantes do peso. Ele decidiu esperar até o momento para decidir se a deixaria sozinha. Ele iria buscá-la às dez horas na saída do vigilantes do peso, mas ele poderia mudar de idéia. Não havia razão dela pensar que poderia sempre depender dele.

Ele voltou para seu apartamento mental decorado com grandes móveis antigos. Sua alma se expandiu num momento mas voltou ao normal quando se deu conta do olhar fixo de sua mãe sobre ele. Os pequenos pés dela pendurados, como os de uma criança, mal alcançavam o chão. Ela estava treinando um exagerado olhar de reprovação.

Ele se sentia completamente desligado dela. Naquele momento ele poderia lhe dar um tapa da mesma forma que daria a uma criança que merecesse. Ele começou a imaginar várias maneiras de como lhe dar uma lição. Ele poderia fazer amizade com distintos professores e advogados negros e levá-los para passar a tarde em casa. Ele estaria completamente justiçado mas a pressão dela poderia subir a mil. Ele não podia pressioná-la a ponto de ter um derrame, e além do mais, ele nunca seria bem sucedido em ter amigos negros. Ele havia tentado fazer amizade no ônibus com alguns que pareciam professores, pastores ou advogados.

Uma vez ele se sentou ao lado de um bem apessoado homem de pele escura que respondeu suas perguntas com muita solenidade, mas que descobriu ser apenas um agente funerário. Outra vez ele se sentou ao lado de um fumante afroamericano com um anel de diamante no dedo, mas após uma troca de palavras amenas, o homem virou um despertador ambulante e se levantou, deixando duas passagens na mão de Juliano enquanto pulava por cima dele para sair do ônibus.

Ele imaginou sua mãe caindo doente e o único médico que conseguiria seria um afroamericano. Ele brincou com essa ideia por alguns minutos e a abandonou para imaginar a si mesmo participando de uma campanha nas ruas em favor dos negros. Era possível, mas ele não se demorou nessa imagem. Em vez disso, ele se aproximou do máximo horror para sua mãe, visualizando trazer para casa uma linda mulher negra. Prepare-se, ele disse. Não há nada que você possa fazer. Essa é a mulher que eu escolhi. Ela é inteligente, digna, boa. A mãe sofreria mas saberia que não era brincadeira. Agora nos amaldiçoe, vá em frente. Mande ela embora daqui, mas se lembre, eu vou junto.

Seus olhos se estreitaram com toda a indignação que podia ter gerado, ele via sua mãe do outro lado do corredor, rosto avermelhado, encolhida até o tamanho de um duende por sua natureza moral, sentada como uma múmia com um ridículo chapéu bandeira.

Ele estava entretido em suas fantasias quando o ônibus parou. A porta abriu com um chiado e da escuridão veio uma grande, alegremente vestida e rabugenta mulher negra com um menino. A criança, com uns quatro anos, usava uma bermuda escocesa e um chapéu tirolês com uma pena azul. Juliano esperava que ele se sentasse ao lado dele e a mulher ao lado de sua mãe. Ele não poderia imaginar coisa melhor.

Enquanto esperava por suas passagens, a mulher pesquisava as possibilidades de onde sentar – e ele aguardava que ela escolhesse onde menos a queriam. Havia algo de familiar nela mas Juliano não sabia o que poderia ser. Ela era uma mulher bem alta. Seu rosto mostrava não apenas ser do contra, mas gostar de ser. A ponta de seu grande lábio inferior parecia dizer: Não mexa comigo.

Sua grande figura estava em um vestido de crepe verde e seus pés sobravam nos sapatos vermelhos. Ela tinha um chapéu horrível, uma faixa de veludo lilás caía de um lado e subia no outro, o resto era verde e parecia uma almofada com o recheio saindo para fora. Ela carregava um porta-moedas vermelho que parecia carregado com pedras.

Para o desapontamento de Juliano, o menino se sentou num banco vago ao lado de sua mãe. Ela colocava todas as crianças, brancas ou negras, em uma mesma categoria, “bonitinhas”, e achava que negrinhos eram até mais bonitinhos que crianças brancas. Ela sorriu quando o menino se sentou. Enquanto isso a mulher negra caía sobre o assento vago ao lado de Juliano. Para seu aborrecimento, ela o espremeu desajeitadamente.

Ele viu o rosto de sua mãe mudar enquanto a mulher de instalava ao seu lado e percebeu com satisfação que aquilo era pior para ela do que para ele. Seu rosto estava desfalecido e seu olhar completamente perdido, como se ela estivesse se sentido mal diante de um perigo. Juliano percebeu que era porque a mulher, de um certo modo, havia trocado os filhos. Apesar de que sua mãe não pudesse notar o significado simbólico disso, ela o sentia.

O contentamento de Juliano transpareceu em seu rosto. A mulher ao lado resmundou algo incompreensível para si mesma e ele sacou um tipo de desconforto em relação a ele, um eriçar de pelos de uma leoa com raiva. Ele não conseguia ver nada além do porta-moedas vermelho sobre o vestido verde. Ele visualizou a mulher enquanto ela esperava suas passagens, a figura ponderada, elevando-se dos sapatos vermelhos em direção aos sólidos quadris, o busto de elefante, a face arrogante até chegar ao chapéu verde e lilás. Seus olhos se alargaram.

A visão dos dois chapéus, idênticos, surgiu para ele como a felicidade de um brilhante amanhecer. Sua face se iluminou de alegria. Ele não podia acreditar que o destino havia planejado dar uma lição à sua mãe daquela forma. Ele deu uma gargalhada que faria ela olhar para ele e ver o que ele via. Ela se virou lentamente para ele. O azul de seus olhos parecia mais escuro. Por um momento, ele teve uma desconfortável consciência da inocência dela, mas durou apenas um segundo até a verdade resgatá-lo. A justiça o fez sorrir. Seu sorriso endureceu e era como se estivesse dizendo em voz alta. Sua punição, mamãe, se encaixa exatamente na sua pequenês. Isso deve lhe dar um lição permanente.

Os olhos da mães se voltaram para a mulher negra. Ela parecia incapaz de ficar olhando para ele e achar a mulher preferível. Ele se tornou novamente consciente da eriçada presença ao seu lado. A mulher estava tensa como um vulcão prestes a entrar em erupção. A boca de sua mãe começou a torcer levemente num canto. Com tristeza, ele viu alguns sinais de recuperação em seu rosto e notou que tudo que estava acontecendo parecia apenas engraçado para ela e não haveria lição nenhuma. Ela manteve os olhos sobre a mulher e esboçou um sorriso como se ela fosse uma macaquinha que houvesse roubado seu chapéu. O negrinho olhava para ela com olhos fascinados. Ele já estava tentando chamar sua atenção desde o começo.

“Carlinhos!” a mulher falou de repente. “Venha aqui!”

Quando notou que olhavam para ele, Carlinhos estendeu seus pés e os girou em direção à mãe de Juliano enquanto ria.

“Carlos!” a mulher falou. “Está me ouvindo? Venha aqui!”

Carlos escorregou do seu assento esfregando as costas nele com a cabeça voltada em direção à mãe de Juliano, que sorria para ele. A mulher estendeu a mão sobre o corredor e puxou o menino para junto dela. Ele endireitou se apoiando sobre os joelhos, ainda sorrindo para a mãe de Juliano. “Não é uma gracinha?” Ela perguntou para a mulher de dentes saltados.

“Ah, sim, ele é,” respondeu a mulher com convicção.

A mulher negra o agarrou mas ele fugiu, correu pelo corredor, gritando e rindo alto, até voltar parar atrás do banco da mãe de Juliano. “Acho que ele gostou de mim,” ela disse e sorriu para a mulher. Era o sorriso especial que usava quando falava com um inferior. Juliano viu que estava tudo perdido. A lição tinha se deslizado dela como chuva no telhado.

A mulher ficou de pé e agarrou  o menino atrás do banco como se o estivesse afastando de uma doença contagiosa. Juliano podia sentir  a ira dela por não possuir uma arma como o sorrisinho de sua mãe. Ela deu um tapa na perna do menino.  Ele gritou, atirou sua cabeça em direção ao estômago da mãe e chutou com raiva a sua canela. “Comporte-se,” ela disse com firmeza.

O ônibus parou e o afroamericano que estava lendo jornal saiu. A mulher escorregou para o lugar dele e colocou num sopetão o menino entre ela e Juliano. Ela o mantinha firme perto de seus joelhos. O menino cobriu as faces com as mãos mas ficou espiando a mãe de Juliano entre os dedos.

“Eu tô vendo vocêêê!” ela disse enquanto repetia o gesto do menino, espiando-o entre os dedos.

A mãe do menino estapeou as mãozinhas dele. “Pare com essa bobagem,” ela disse, “jesus vivo me perdoe, senão eu acabo com você.”

Juliano agradeceu pela próxima parada ser onde eles desciam. Ele se levantou e puxou o cordão da campainha. A mulher fez o mesmo ao mesmo tempo. Ai meu deus, ele pensou. Ele tinha a terrível intuição de que quando eles descessem juntos, sua mãe iria abrir a bolsa e oferecer uma moedinha ao menino. O gesto seria tão natural para ela como respirar. O ônibus parou e a mulher avançou para a saída arrastando o menino que teimava em querer ficar no ônibus. Juliano e sua mãe seguiram atrás. Perto da porta, Juliano tentou tirar a bolsa das mãos da mãe.

“Não,” ele sussurrrou, “Eu quero dar uma moedinha para o meninho,” ela respondeu.

“Não!” Juliano chiou. “Não!”

Ela sorriu para a criança e abriu sua bolsa. A porta do ônibus se abriu, a mulher puxou o menino pelo braço e desceu com ele, pendurando-o sobre seu quadril. Uma vez na rua ela o colocou de volta no chão.

A mãe de Juliano teve de fechar a bolsa para descer mas tão logo pôs os pés na calçada, abriu novamente e começou a cavocá-la. “Não consigo achar uma moeda,” ela sussurrou, “ah, parece que encontrei uma.”

“Não faça isso!” Juliano disse entre os dentes, quase gritando. Havia um poste de luz na esquina e ela correu até debaixo dele para ver melhor o interior da bolsa. A mulher estava já bem à frente com a criança segura pela mão.

“Meninho!” A mãe de Juliano chamou e andou apenas alguns passos para alcançá-los. “Aqui tem um moeda novinha para você,” e estendeu a mão com a moeda, que brilhou amarela sob a luz do poste.

A enorme mulher se virou e parou por um momento, seus ombros se ergueram e o rosto congelou com indignação, olhando fixamente para a mãe de Juliano. De repente, ela explodiu como um motor estourando por dentro. Juliano viu o punho negro se levantar segurando o pesado portamoedas vermelho. Ele fechou os olhos e os apertou enquanto ouvia a mulher gritar, “Ele não precisa de moedas de ninguém!” Quando abriu os olhos, a mulher descia rua abaixo com o menino no colo, os olhos dele escancarados por sobre seu ombro. A mãe de Juliano jazia sentada no meiofio.

“Eu disse pra não fazer isso,” Juliano disse aborrecido. “Eu disse pra não fazer isso.”

Ele ficou de pé ao lado dela apertando os dentes. As pernas dela estava esticadas para a frente com o chapéu sobre o colo. Ele se abaixou e olhou para seu rosto. Estava totalmente sem expressão. “Você teve o que merecia,” ele disse. “Agora levante.”

Ele pegou a sua bolsa e recolheu do chão o que havia caído dela. Pegou o chapéu de seu colo. O brilho da moeda na calçada puxou seus olhos, ele a pegou e a colocou na bolsa bem na frente do rosto da mãe. Então ele se inclinou e puxou pelas mãos da mãe para ajudá-la a se levantar. Ela permaneceu imóvel. Ele suspirou. Acima deles se erguia um bloco de apartamentos escuros, marcado com algumas janelas acesas. No fim da rua um homem saiu à porta e caminhou para outra direção. “Tudo bem,” Juliano disse. “Imagina se alguém aparece e pergunta o que você está fazendo sentada na calçada?”

Ela pegou a mão dele, respirando forte, e se puxou para cima até ficar em pé, parada, balançando levemente como se pontos de luz estivessem circulando em volta dela. Seus olhos, escuros e confusos, finalmente se acertaram no rosto. Ele não conseguia esconder sua irritação. “Espero que isso lhe sirva de lição,” ele disse. Ela se aprumou e encarou Juliano. Parecia estar se perguntando quem era ele. Então, como se não o reconhecesse, começou a se virar para a direção errada.

“Você não vai mais para o vigilantes do peso?” Ele perguntou.

“Vou pra casa,” ela resmungou.

“Ah, tá… Andando?

Como resposta ela continuou caminhando. Juliano foi até ela com as mãos nas costas. Ele não ia deixar de lado a oportunidade de explicar o significado da lição. Ela seria bem capaz de entender o que havia acontecido. “Isso é pra você aprender que não existe mais uma raça negra disposta a aceitar sua caridade. Eles são nossos iguais. Ela pode usar o mesmo chapéu que você, e veja,” ele resolveu acrescentar (pois achava engraçado), “fica melhor nela do que em você. Tudo isso significa que o velho mundo se foi. Os costumes antigos estão obsoletos e sua educação, sua tradição não valem mais nada.” Ele se lembrou amargamente da velha casa em que não pôde viver. “Você não é quem você pensa que é,” ele finalizou.

Ela continuava a caminhar sem prestar atenção nele. Seu cabelo desfeito. Deixou cair a bolsa e nem notou. Ele a pegou do chão, estendeu para a mãe mas ela não a pegou de volta.

“Você não precisa agir como se o mundo tivesse acabado,” ele disse, “não acabou. Daqui por diante você tem de viver neste novo mundo e enfrentar a realidade, pra variar. Anime-se, isso não vai matar você.”

Ela estava respirando rápido.

“Vamos esperar o ônibus,” ele disse.

“Vou pra casa”, ela respondeu firme.

“Eu odeio quando você se comporta assim,” ele disse. “Igual a uma criança. Eu queria poder esperar mais de você.” Ele decidiu parar onde estava e fazê-la parar para esperarem o ônibus. “Não dou mais um passo,” e parou. “Vamos esperar o ônibus.”

Ela continuou como se não tivesse ouvido nada. Ele se adiantou e a puxou pelo braço para pará-la. Então olhou seu rosto e prendeu a respiração. Ele estava vendo um rosto que jamais havia visto antes. “Diga para o vovô me pegar aqui,” ela disse.

Ele arregalou os olhos, chocado.

“Diga pra Carolina vir me buscar,” ela disse.

Tonto, ele a soltou para ela caminhar, mancando como se uma perna estivesse mais curta que a outra. Uma sombra na escuridão os separou um do outro. “Mãe!” ele gritou. “Querida, coração, espere!” Tropeçando, ela caiu de cara sobre o asfalto. Ele correu e se estendeu ao seu lado, chorando, “Mamãe, mamãe!” Ele a virou para cima.

O rosto dela estava completamente distorcido. Um olho, grande e aberto caía para a esquerda como se não estivesse preso. O outro o olhava fixo, procurando reconhecer o que via, e sem achar nada, se fechou.

“Espere aqui, espere aqui!” ele gritou e pulou, correu em direção às janelas acesas.

“Socorro, socorro!” ele gritou, mas a voz saía fraca, quase sem som. As luzes pareciam ficar mais longe a cada passo, seus pés caminhavam sem direção. Uma onda de escuridão parecia empurrá-lo de volta para ela, adiando o momento de sua entrada em um mundo cheio de culpa, remorso e sofrimento.