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Palavras Cínicas

Autoajuda, Filosofia, Literatura Comments (0)

Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio de um festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar.


Leia o livro inteiro.

Carta I

Meu amigo: Escrevo-te de longe, de muito longe, perdido nos confins deste meu bairro onde sómuito fraco chega o rumor da grande cidade. De que hei de falar? Da Vida? Pois seja. Tu vens para ela, para o imenso brouhaha. A vida é a escola do cinismo. Trazes coração? Esmaga-o ao entrar como uma coisa que nos compromete, que nos avilta. Se acaso és bom, tolice, não venhas. Aqui para triunfar, é preciso ser mau, muito mau.

Sê mau, cínico, hipócrita,e persistente que vencerás. Serás aclamado, respeitado e invejado. Ri do Bem e daVirtude, da Alma e do Sentir. Ri de tudo, que é preciso que rias. Abafa um protesto com umsorriso, uma agonia com uma gargalhada, um estertor com uma praga. Sê polido, meu amigo. Encobre a raiva sob o riso, e o riso sob o pesar. Sê mau, sobretudo. Se a alma compromete estrangula-a, se o riso desmascara sufoca-o, se o choro atraiçoa esfibrina-o às gargalhadas. Não ames nem creias. Todo o homem que ama é homem perdido, e todo aquele quecrê nunca será ninguém. Odeia sempre. Odeia os que sobem e os que pretendem subir, odeiaos que subiram e os que um dia subirão. Odeia todos e desconfia. Lembra-te que o Ódio dá mais prazeres que o Amor. A satisfação de ver agonizar um canalha, quer ele seja um mártir, quer ele seja umladrão, é maior que a de sentir os braços opulentos de uma mulher que se entrega. É menosum. Sê pois forte como o diamante e como o Ódio.No Amor gentil comédia sê pródigo, e sobretudo nunca ames uma só mulher. Seés bom serás ridículo, se és mau serás temido. Sê mau sempre. Este farrapo a que se chama Vida foi, é e há de ser sempre assim.Tudo é egoísmo. Se és bom morrerás como Judas, se és mau meu amigo serás lembrado como Satã.

Vem, mas vem cínico. Triunfarás, terás ouro, amantes, mulheres, o diabo. Acredita que metade da humanidade nasceu para se rojar pela lama, para que tu, eu,todos os maus, todos os cínicos, a esmagássemos e lhe cingíssemos fraternalmente as carnescom um chicote. Depois da morte há o Nada. Portanto, meu caro, aqueles que o sabem,o que pensam é em sugar a vida com um furor de agiotas sem entranhas. Isto é como nomar; já Shakespeare dizia que o mugem vive para ser tragado pelo lúcio .Ou serás vencido ou vencedor. Se vencido esperam-te todas as humilhações, desde o desprezo até a compaixão. Se vencedor todos os triunfos, desde o respeito ao Capitólio.Luta sempre calado, fino, sabido, que se não tens jeito para isto serás um eunuco eterno, castrado para a Vida, para o Amor e para o sonho. A raiva também tem o seu gozo, o Ódio também tem o seu amor.

E o amor do Ódio é maior porque é mais forte. Não poderás gozar e serás mais desprezado do que uma sera pilheira que o uso condenou. A carne é matéria como a rocha, a rocha é matéria como a flor. Da mulher honesta àprostituta não há diferença, a distância de uma à outra é nula. Não beijam ambas? Uma por prazer, outra por precisão. Pois, meu caro, eu prefiro a prostituta sempre. Acredita que todos se vendem, homens e mulheres, palhaços e imperadores, cristose mendigos: a questão é de preço e o preço sufoca todas as consciências, todas as revoltas.Acredita que falta quem compre toda a gente que se quer vender. A mulher mais honesta capitula, e aquilo a que tu chamas acaso, chamo eu persistência,e a persistência gasta a vida como a água gasta a rocha. Tu és filho de uma prostituta pois que tua mãe só foi de teu pai e teu pai foi o primeiroa quem ela se entregou, que depois o egoísmo do seu amor fez conservar junto de si…O seu corpo tinha gozos inusitados que ele demandou primeiro. E se teu pai não fosse dela, seria o primeiro que lhe agradasse, o primeiro que a sua carne lhe impusesse, oprimeiro que passasse à sua rua. Assim, tu és filho de um operário como o poderias ser deum assassino. Podia mais a sua carne do que ela, mas o seu egoísmo foi maior do que a sua carne.

A vida é uma luta brutal . (Tourgueneff) Tu crês em Deus? Crês sim, que bem o sei. Pois bem; vai dizer-lhe que eu o odeio com toda a força do meu ódio. Tu que te dás com ele, que crês nele, que és amigo dele, vai dizer-lhe que ele é mais vil do que as coisas vis. Vai dizer-lhe que eu o odeio, porque ele deixou morrer aquela criatura aqui do lado, cujos seis filhos abandonados me vieram comer o meu jantar. Vai dizer-lhe o ódio que lhe tenho por ele deixar morrer aquele justo, que porser bom teve de se matar; diz-lhe finalmente que nada disto se deve fazer quando se é Deus. Que me odeie agora também porque eu dei o jantar aos pequenos que não o tinham;que me odeie porque a última camisa a dei a um pobre que quase ma roubou; que me odeie porque eu o castigo como no outro dia castiguei um velho que maltratava um cão. Anda,vai dizer-lhe que me odeie, que se avilte ainda mais se é capaz..A geração é de covardes e cada ano que passa está mais corrupto o mundo . (M.Gorki)

Ah, não ter eu muito que dar a este pequeno miserável que me bate agora à porta,para que ele me chame o mais vil que o sol cobre, o mais canalha de todos, o mais indigno,o mais bandido!Ele não se engana. Lá tem o seu raciocínio que não falha nunca.Dei-lhe tudo o que tinha e todavia vai a resmungar baixinho que um dia, um dia quevirá cedo, me virá bater à porta com uma coronha e me há de fuzilar a mim, o maior dospatifes que o socorri.Vai-se embora a pensar que se fosse rico, havia de azorragar toda essa ralé que pedeesmola e toda aquela que dá tudo o que tem.E cisma em ser um dia o maior dos Neros que o mundo tem visto; em ter um chicotecom que possa de uma só vez azorragar a Terra, ele, cujo corpo deveria ser balançado nocandeeiro ali defronte.

De trinta mendigos a quem dei esmola hão de nascer noventa patifes para me apedrejar.Abençoada esmola! Mas explica-se. É que a minha esmolaesmola humanafecundalá dentro todo o meu cinismo e toda a minha canalhice.Deste-me esmola? Muito bem, odeio-te. Odeio-te porque não posso também daresmola e porque me curvei a ti. Toda a vida tu me fizeste bem, socorreste-me, agasalhasteme.Um dia eu mau como sou estou por cima. Então eu havia de perder a ocasião de mevingar de tudo o que tu me fizeste? Chegou o meu dia. Agora, meu velho, eu sou maior,ouves? Eu dobrei-me e tu socorreste-me, mas eu dobrei-me. Eu era um faminto e tu sentaste-me à tua mesa, mas eu dobrei-me. Tive fome tu encheste-me, tive frio tu agasalhaste-me.Irritante Tu, sempre Tu.

E eu não podia vingar-me, mas agora chegou minha vez.Acredita que todos aqueles a quem fazemos bem nutrem lá dentro a secreta esperançade um dia nos correrem a pontapé. Logo no primeiro dia em que não temam desconjuntara bota quando o fizerem, percebes? Escutaste? Vem, se te sentes com forças. Demais és pobre. Então para ti a vida é tudoisto e tudo o mais que tu tiveres coragem de inventar. O pobre será odioso até ao seuparente mais chegado (Provérbios, XIV, 20), que não merece carinhos quem não tempara caldo (Silva Pinto), ouves? Tu virás e triunfarás. Tu serás mau e cínico e traidor.A Vida? Seria loucura, na verdade, conservarmos alguns sentimentos compassivosquando vivemos em semelhantes cavernas . (M. du Camp)A Vida é uma canalhice, uma farsa, uma luta brutal , como diz Tourgueneff.

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kntz @ November 3, 2009

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