A maior contribuição da internet para a humanidade foi a maximização da alteridade. Do reconhecimento do outro. Nunca antes tantas opiniões estiveram disponíveis sobre tudo. Livremente. E o grande volume de opiniões diferentes intensifica a necessidade do diálogo e do acordo em tudo que fazemos. Já está morta a era de ideologias ou receitas de certo e errado, esquerda e direita. E o melhor conselho, não diretriz, apenas conselho, que podemos seguir é a do desenvolvimento da nossa inteligência moral. Aquela capaz de tomar decisões a partir de equações entre diversas opiniões diversas.
Virou moda um tempo e se transformou em lugar comum no terreno das análises de comportamento no mundo empresarial (e pessoal) o termo inteligência emocional. Nitidamente uma consequência da teoria de inteligências múltiplas que também tem seu sucesso garantido em muitas justificações e racionalizações sobre o comportamento humano. Embora tenham aparência de resultados da ciência, enquanto registro linguístico de fenômenos factuais, estão presas mais ao desenvolvimento de metáforas ( que parecem esclarecedoras, mas acabam apenas por criar coisas que, de fato, não existem ) do que conhecimento real, ou seja, conhecimento que produza algo mais que um discurso passível de especulações sobre seu sentido. É aquilo que alguns críticos da psicologia em geral chamam de folk psychology, nada além de um discurso popular ao nível da astrologia e outras mancias. Dizer que um indivíduo age assim ou assado por ser do signo de sagitário ou por ser físico-sinestésico são a mesma coisa e nada ao mesmo tempo. O atrativo da folk psychology é o mesmo dos mitos e das superstições, reduzem o mundo a meia dúzia de classificações ou categorias e simplificam nossas incertezas. São úteis na medida em que substituem o genocídio pela tolerância, a eliminação do outro pela convivência. Úteis por permitirem a invenção de palavras que evitam ou adiam o conflito. E por causa desse estilo literário, a folk psychology ou auto-ajuda, podemos então adjetivar a inteligência de diversas maneiras, expressar opiniões e contribuir para o desenvolvimento da sociabilidade, ou da inteligência moral, por que não dizer. Fica mais didático, não é?
Assim, aproveitando a deixa, façamos uma viagem holística, e imaginemos que enquanto a inteligência sentimental não pode ser simulada, pois é impossível fingir sentimentos, a inteligência emocional é justamente a demonstração do comportamento aprendido com ou sem intenção de revelar o que se sente realmente. Por trás de toda demonstração emocional dos sentimentos existe ou ignorância, ou cinismo, ou hipocrisia ou tolerância, quase que como graduações de comportamento inteligente. Por isso, inteligência emocional também poderia ser chamada de inteligência maquiavélica, convenhamos. Teríamos então uma inteligência que revela um comportamento ignorante, o sujeito não sabe o que sente e não sabe o que demonstrar; um comportamento cínico, o sujeito não sente nada e pode ou não demonstrar o que quiser; o comportamento hipócrita, o sujeito sente algo mas demonstra apenas o que é necessário demonstrar; o comportamento tolerante, o sujeito revela o que sente e se comporta como for necessário.
O ápice da inteligência maquiavélica ou emocional, então, é saber se comportar, demonstrar emoções derivadas ou não de sentimentos originais. É uma inteligência comportamental e, portanto, moral . Tem a ver com usar ou não a inteligência emocional para manipular pessoas ou enganar a si mesmo. O dilema, ou não teria nada a ver com moralidade, é justamente que uma inteligência moral, no sentido ético que estamos acostumados a compreender a moral, não convive bem com os primeiros três níveis de inteligência emocional, a ignorante, a cínica e a hipócrita. Mas pode conviver pacificamente com a tolerância explícita. Sinônimo de inteligência moral, a tolerância evita a guerra sem esconder que o conflito existe e cria oportunidades para a resolução dos problemas via diálogo verdadeiro – troca de ideias e opiniões – e não apenas trocando mesuras, discursos, frases feitas, luvas de pelicas, socos, bombas, tiros e pontapés.
Enfim, tolerai-vos uns aos outros. É o jeito mais inteligente de mostrar inteligência e sair ileso.
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Achei interessante essa divisão. Isso daria um senhor livro de auto ajuda.