3 pessoas com idéias próprias.

  1. kntz July 20, 2008 @ 05:56

    Ainda tentando equacionar a estética do site.

  2. Fernando Maria January 27, 2009 @ 15:03

    Tenho 68 anos, e li PALAVRAS CINICAS quando tinha CATORZE (14 ) ANOS, imprestado pelo periodo de vinte e quatro horas, .
    Hoje recordo o que ha 68 anos fascinou o meu ser.
    Muito obrigado
    Fernando Maria
    Londres
    Inglaterra

  3. kntz January 30, 2009 @ 10:57

    Aproveitou pra ler de novo? O exemplar que eu tinha foi emprestado e nunca mais vi.

Ajuda aos desajudados.

kntz Comments (3)

Palavras Cínicas é uma raridade, só encontrada por frequentadores de sebos, e também única em seu discurso amargo de auto-ajuda sem meios-termos ou comiserações. Nua, crua, direta e vil, a verdade que ninguém gosta de saber sangra literalmente de suas páginas. Transcrita em blogs pela internet afora, orginalmente escrita em português por Albino Forjaz de Sampaio, no início do século XX, desconheço se tem traduções em outras línguas, mas é um livro que merece ser lido por qualquer um que ainda queira ser impressionado com a literatura, curta e grossa. Se você já cansou de ler oggs, segredos, paulos e curis. Você pode fazer o download do livro Palavras Cínicas ou ler aqui mesmo.

Prefácio

Albino Maria Pereira Forjaz de Sampaio nasceu em Lisboa em 1884 e faleceu namesma cidade em 1949. Esquecido e ignorado hoje em dia, Forjaz de Sampaio foi autor de um dos livros mais vendidos do século XX, Palavras Cínicas, que, à morte do autor, já tivera 46 edições. Dele disse Almada Negreiros, no seu Manifesto Anti-Dantas: E o raquítico Albino Forjaz de Sampaio, crítico da Luta a que o Fialho com imensa piada intrujou de que tinha talento!? Albino Forjaz de Sampaio começou a sua carreira literária como jornalista no jornal A Luta sob o patronato de Fialho de Almeida e Brito Camacho. O seu percurso teve duas fases distintas, um pouco como a sua escrita. Se de início a sua escrita aprendeu muito do jornalismo, o falar da rua, do submundo lisboeta, a resposta rápida, numa segunda fase dasua carreira procurou legitimar essas suas características como formas arcaicas, coloquialismosde origem erudita que foi encontrar nas suas investigações sobre o antigo teatro popular. A crônica de crítica social que procurava inverter a moral comum da época tornou-ofamoso, sobretudo pelo escândalo que as suas opiniões originavam. Fazia-o um pouco à maneira de Oscar Wilde, mas num país ainda menos preparado para tais agitações. Daí quea sua estréia tenha sido estrondosa (embora as crônicas jornalísticas que já publicara o anunciassem), foi essa estréia com o livro Palavras Cínicas que, no começo do século(1905), deixava os portugueses tudo, menos indiferentes: muitos criticaram, outros riram,alguns elogiaram, mas muitos admitiram a verdade das opiniões emitidas, da subversão damoral vigente, dos juízos anti-clericais, da crendice popular, da esperteza , da clara opiniãode que a Vida não valia mais a pena no mundo em que se vivia. A partir deste sucesso Forjaz de Sampaio levou a sua crítica social ao ponto de criaruma arte da crítica ou, como diria Wilde, a crítica da crítica. Com humor, cinismo e umaausência completa de consciência social a obra de Forjaz de Sampaio fez-secomo a de muitos escritores que ninguém lê mas cujas edições se esgotam atrás de edições.O ápice deste gênero de que foi o único cultor foi atingido com Crônicas Imorais(1909), o exemplo mais conseguido desta sua artee continuou com Prosa Vil (1911),Cantáridas e Violetas (1915), Tibério, Filósofo e Moralista (1918) e O Homem que deu o seu Sangue (1921) entre outros.O segundo gênero que desenvolveu, de menor interesse e originalidadede acordocom Oscar Lopes , foi o naturalismo com tendências decadentistas que desenvolveu emvolumes de contos e algumas novelas. Tinha este gênero já alguns percursores como RaulBrandão e sofria a influência das filosofias de Nietzsche ou Schopenhauer (de quem aliásForjaz de Sampaio traduziu As Dores do Mundo). É a vertente da obra do autor que menosinteresse suscitará, senão pelo quadro da miséria em Portugal que descreve com rigor jornalístico.A precisão da descrição interessará muitos olissipógrafos pelos conhecimentos pro4fundos que revela de um submundo lisboeta que mais nenhum escritor da época descreviaem tanto pormenor. A escrita de Forjaz de Sampaio é um mundo a descobrir. O escritor desenvolveuuma linguagem muito sua inventando inúmeros vocábulos e passando para o papel uma série de coloquialismos originais e que muito ajudavam na construção do humor que seusescritos patenteavam. Como muitos dos escritores seus contemporâneos, Forjaz de Sampaioera um artista da frase, da máxima (em 1922 dava ao prelo Mais Além do Amor e da Morte,um livro de máximas e pensamentos). Toda a sua escrita era constituída por um conjunto deartifícios que visavam culminar em uma máxima/frase central que muitas das vezes eracontrária ao argumento que tinha vindo a elaborar. O seu ensejo de escandalizar levava a algumas inovações no mundo editorial de então,e em 1916 Forjaz de Sampaio reuniu-se com o pintor Bento de Mântua no sentido deelaborar a obra O Livro das Cortesãs, que tratava-se de uma antologia de poetas portuguesese brasileiros (da poesia trovadoresca até aos poetas contemporâneos) cujos poemas tivessempor tema as prostitutas e a prostituição. A crítica mordaz, a frase curta e incisiva e o seu linguajar ofensivo fizeram de Forjazde Sampaio um dos escritores mais amados, mas também um dos mais odiados da literaturaportuguesa. As suas obras são extremamente atuais na crítica que fazem de uma sociedadeque perde os seus valores e ideologias. Na maneira como vê o jornalismo sensacionalistae a sua influência sobre as massas. Na forma como via o curso que o panorama culturalportuguês levava. Na crise que anunciava a II Guerra Mundial. Na forma como anunciavaa morte da literatura pela morte da leitura…Quem hoje ler essas crônicas de Albino Forjaz de Sampaio poderá certamente considerá-lo o Júlio Verne da sociedade portuguesa pela forma como as suas predições vierama realizar-se. Estes dois gêneros foram essencialmente desenvolvidos na primeira fase da sua carreira. Uma segunda fase da sua carreira começou a verificar-se por volta da década de 20. Se até aí Forjaz de Sampaio tinha sido o menos canônico dos escritores, de um momentopara o outro o escritor começa a interessar-se pela história da literatura portuguesa, torna-seum bibliófilo acérrimo. Rapidamente e através do seu conhecimento do submundo lisboetaForjaz de Sampaio reúne de vários pequenos alfarrabistas um enorme espólio da literatura popular, o que resulta na publicação de Teatro de Cordel (1920-1922), ainda hoje um dosmelhores estudos de conjunto sobre o teatro português nos séculos XVII, XVIII e inícios doséculo XIX. Esta publicação editada pela Academia das Ciências de Lisboa mereceu aoautor, até então considerado vulgar e rasteiro , a condição de Sócio Honorário da mesmaAcademia.Com efeito, se bem que já em 1916 no livro Grilhetas juntasse alguns textos sobreescritores e obras literárias (um dos quais um genial ensaio sobre os problemas financeirosde Camilo e a influência que tiveram no percurso literário do escritor, ensaio elaborado apartir de um conjunto de documentação que Forjaz de Sampaio adquirira por tuta e meia edo qual constava a correspondência de Camilo com os seus editores e a contabilidade destesúltimos), é a partir da publicação de Teatro de Cordel que Forjaz de Sampaio vê serem-lher e conhecidos os primeiros méritos por um mundo literário português que até então o desprezaraporque o receava. Neste processo de institucionalização a publicação da seqüência de obras de investigaçãoliterária e o jornalismo deste mesmo jaez seguem-se a um ritmo alucinante, Homens de Letras (1930), a coleção Patrícia dedicada aos maiores vultos da literatura portuguesapublicada a partir de 1924 (sob o patrocínio do Diário de Notícias) em perto de 30 volumese a sua monumental História Ilustrada da Literatura Portuguesa em 3 volumes são dissoexemplo.Nos últimos anos da sua vida, Albino Forjaz de Sampaio dedicou-se essencialmenteaos estudos de biblioteconomia, à história do livro e da tipografia. Publicou alguns volumes de cariz eminentemente nacionalista na seqüência da políticade espírito criada por Antônio Ferro.Morreu em Lisboa, a sua cidade de eleição, a escrever um artigo para um jornal.Forjaz de Sampaio nunca se afirmou um escritor mas bradou aos quatro ventos que era umjornalista levado dos diabos . Prefácio após um século Encontrei o Palavras Cínicas num sebo de Bragança Paulista, ao preço irrisóriode 50 centavos. Engracei-me com o título, mas jamais poderia esperar o que encontrei ao folhear aquele libreto de 96 páginas, já bastante esgarçado pelos anos: uma alma inteiramente compatível com a minha, totalmente frustrada com a Humanidade. Eu já havia lido alguns livros mórbidos, como As Flores do Mal , de Baudelaire, Crime e Castigo , de Dostoiewsky, Uma Estadia no Inferno , de Rimbaud, e ainda inúmeros contos de Poe,Oscar Wilde, Maupassant, Apollinaire e outros tantos, porém nada que chegasse àquele nível de crônico desencanto, àquele desespero existencial, àquela amargura em estar vivo. Pesquisando na Internet, posteriormente descobri que o autor o escrevera aos vinte anos! Como pôde chegar a semelhantes definições tão cedo? Sim, havia lido bastante, e nos livrosque lera percebera reflexos de sua própria consciênciajá prematuramente destroçada. E de que outra forma compreendemos nós as desilusões que nos acometem? Se não tivermos parâmetros externos, acabaremos achando que desgraças são eventos maravilhosos como querem que pensemos os interessados em nos desgraçar. Forjaz de Sampaio não é elegante com as palavras, apesar de sua evidente cultura. Chega a ser enfadonho com suas repetições. Mas não se pode negar a evidência de suas conclusões. A vida, apesar de todas as melhorias que sofreu nos últimos cem anos, não deixou de ser trabalhosa, negativa e cruelmente tediosa. Nervos à flor da pele, atentados, rebeliões,moléstias, penúria, calamidades, injustiças sociais e outras tantas misérias ainda dão oar da graça, mesmo no início deste nosso terceiro milênio. Quando deixaremos de nos matarem nome da ganância? Quando reconheceremos nossa igualdade, nossa ínfima condiçãoperante nós mesmos? O homem não aprende com seus erros. Ignora o passado, mesmo sabendoque o fazendo estará sempre condenado a repeti-lo. Não existe Amor (ou antes, Caridade)apenas uma instituição com esse nome, a qual usam para angariar fundos cujo real fim é sempre um mistério. A Paz é algo negociado como carne, e carne é a moeda que usam para negociá-la. Os pobres são um incômodo que costumam varrer para debaixo do tapete às vezes literalmente. Todos estão interessados no seu próximomas em como elepoderá se tornar lucrativo, quando não um mero estorvo. A ignorância é cultivada como um estado interessante para as massasafinal, umpovo idiota é facilmente manipulado. Políticos corruptos garantem a solução dos problemas sociais durante o período eleitoral sumindo logo depois. Quando reaparecem, é porqueestão envolvidos em desvios de verba, superfaturamentos, maracutaias e coisas do tipo. As igrejas hoje às centenas de milhares continuam prometendo o céu sem demonstrar como seria possível que um tal playground post mortem realmente possa existir. Não seria justoque criassem uma filial aqui na Terra, para que os fiéis fossem já se acostumando com o Paraíso? Mas nada disso é feito. Talentos são ignoradoso talento era apenas uma moedade prata no tempo da dominação romana, não é mesmo? Nada de granjear subjetividades tem alguma grana aí com você? Só o dinheiro é adorável por aqui! E assim todo o potencial de uma pessoa é reduzido ao que ela pode obter comprando. Tenho uma indagação que define muito bem esse estado de coisas: Se não posso viver como quero, como posso querer viver? Bem, é necessário que eu diga que não pretendo ser podre de rico, não tenho ambições mirabolantes. Refiro-me a um estilo de vida tranqüilo, de acordo com uma relativa sobriedade é claro que ambiciono algum luxo, o mínimo dentro de minhas parcas pretensões mas, enfim, uma existência sem notícias desastrosas que não me digam respeito como o impacto da alta do petróleo no preço do pão, ou a crise do dólar e sua nefasta influência na economia do país que infelizmente habito. Será que tudo é motivo para arrancarem o nosso couro? Será que algum dia o povo aprenderá a dizer CHEGA? Espero que ainda nessa minha encarnação. Mas voltando ao Forjaz de Sampaio, pode-se dizer que ele nasceu à frente de seu tempo. Mas seria uma bobagem, pois ninguém é capaz disso. Ele apenas não foi hipócrita,viveu o submundo lisboeta de uma forma intensa e não poupou a sociedade do seu tempode sua crítica furiosa. É claro, li apenas o Palavras Cínicas , não tive em mãos nenhum outro material seuou a seu respeito (o que, com exceção de alguns textos biográficospouco explanatórios em determinados sites incluindo a nota inicial desta edição é dificílimode encontrar na rede) mas, partindo dele, posso bem imaginar o resto. Seu estilo, aosvinte anos, lembra o de um poeta nosso, Álvares de Azevedo, o malfadado garoto prodígio da Lira dos Vinte Anos . Seu spleen é superior ao de Baudelaire, seu amargor ainda maiorque o de Augusto dos Anjos. E sua prosa é tão corrosiva quanto a de Lautréamont. Um sujeito que, aos vinte anos de idade, diz: Ser morto! Ser morto!e arremata: Ventura estranha deve estar no mínimo certo de seus sentimentos. Eis portanto o escritor maldito, livre de belas roupagens, inteiramente nu, como apreciariaWilliam Burroughs. Sem meias palavras. Sem meias verdades. Cínico, de um cinismo mais do que sincerou m cinismo originalíssimo, um cinismo inquestionável. Como digerir este simples parágrafo? O que és tu? Um egoísta. Egoísta nos sentimentos e natorpeza, na fuga e na vaidade. Tudo tu fazes por egoísmo. Se tu tivesses tanta fome como tua mãe e só tivesse uma côdea a disputar, tu espancarias a pobre velha para lha roubares.Vamos ao caso que lha davas? Que preferias morrer de fome? Se o tinhas feito é porque isso te satisfazia, te enchia a vaidade de morreres por alguém, tu que és o maior egoístaque o sol cobre. Como escapar a tal lógica?Senhoras e senhores, arregacem as mangas para não sujá-las.

 

Extrema, 2006.
Fred Teixeira

 

 

Palavras Cínicas


Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres nomeio de um festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás asua consolação quando o mundo te fizer chorar.

 

 

Carta I

 

 

Meu amigo:Escrevo-te de longe, de muito longe, perdido nos confins deste meu bairro onde sómuito fraco chega o rumor da grande cidade. De que hei de falar? Da Vida? Pois seja. Tuvens para ela, para o imenso brouhaha. A vida é a escola do cinismo. Trazes coração? Esmaga-o ao entrar como uma coisa que nos compromete, que nos avilta. Se acaso és bom, tolice, não venhas.Aqui para triunfar, é preciso ser mau, muito mau. Sê mau, cínico, hipócrita,e persistente que vencerás. Serás aclamado, respeitado e invejado. Ri do Bem e daVirtude, da Alma e do Sentir. Ri de tudo, que é preciso que rias. Abafa um protesto com umsorriso, uma agonia com uma gargalhada, um estertor com uma praga. Sê polido, meu amigo. Encobre a raiva sob o riso, e o riso sob o pesar. Sê mau, sobretudo. Se a alma compromete estrangula-a, se o riso desmascara sufoca-o, se o choro atraiçoa esfibrina-o às gargalhadas. Não ames nem creias. Todo o homem que ama é homem perdido, e todo aquele quecrê nunca será ninguém. Odeia sempre. Odeia os que sobem e os que pretendem subir, odeiaos que subiram e os que um dia subirão. Odeia todos e desconfia. Lembra-te que o Ódio dá mais prazeres que o Amor. A satisfação de ver agonizar um canalha, quer ele seja um mártir, quer ele seja umladrão, é maior que a de sentir os braços opulentos de uma mulher que se entrega. É menosum. Sê pois forte como o diamante e como o Ódio.No Amor gentil comédia sê pródigo, e sobretudo nunca ames uma só mulher. Seés bom serás ridículo, se és mau serás temido. Sê mau sempre. Este farrapo a que se chama Vida foi, é e há de ser sempre assim.Tudo é egoísmo. Se és bom morrerás como Judas, se és mau meu amigo serás lembrado como Satã.Vem, mas vem cínico. Triunfarás, terás ouro, amantes, mulheres, o diabo. Acredita que metade da humanidade nasceu para se rojar pela lama, para que tu, eu,todos os maus, todos os cínicos, a esmagássemos e lhe cingíssemos fraternalmente as carnescom um chicote. Depois da morte há o Nada. Portanto, meu caro, aqueles que o sabem,o que pensam é em sugar a vida com um furor de agiotas sem entranhas. Isto é como nomar; já Shakespeare dizia que o mugem vive para ser tragado pelo lúcio .Ou serás vencido ou vencedor. Se vencido esperam-te todas as humilhações, desde o desprezo até a compaixão. Se vencedor todos os triunfos, desde o respeito ao Capitólio.Luta sempre calado, fino, sabido, que se não tens jeito para isto serás um eunuco eterno, castrado para a Vida, para o Amor e para o sonho. A raiva também tem o seu gozo, o Ódio também tem o seu amor. E o amor do Ódio é maior porque é mais forte. Não poderás gozar e serás mais desprezado do que uma sera pilheira que o uso condenou. A carne é matéria como a rocha, a rocha é matéria como a flor. Da mulher honesta àprostituta não há diferença, a distância de uma à outra é nula. Não beijam ambas? Uma por prazer, outra por precisão. Pois, meu caro, eu prefiro a prostituta sempre. Acredita que todos se vendem, homens e mulheres, palhaços e imperadores, cristose mendigos: a questão é de preço e o preço sufoca todas as consciências, todas as revoltas.Acredita que falta quem compre toda a gente que se quer vender. A mulher mais honesta capitula, e aquilo a que tu chamas acaso, chamo eu persistência,e a persistência gasta a vida como a água gasta a rocha. Tu és filho de uma prostituta pois que tua mãe só foi de teu pai e teu pai foi o primeiroa quem ela se entregou, que depois o egoísmo do seu amor fez conservar junto de si…O seu corpo tinha gozos inusitados que ele demandou primeiro. E se teu pai não fosse dela, seria o primeiro que lhe agradasse, o primeiro que a sua carne lhe impusesse, oprimeiro que passasse à sua rua. Assim, tu és filho de um operário como o poderias ser deum assassino. Podia mais a sua carne do que ela, mas o seu egoísmo foi maior do que a sua carne. A vida é uma luta brutal . (Tourgueneff) Tu crês em Deus? Crês sim, que bem o sei. Pois bem; vai dizer-lhe que eu o odeio com toda a força do meu ódio. Tu que te dás com ele, que crês nele, que és amigo dele, vai dizer-lhe que ele é mais vil do que as coisas vis. Vai dizer-lhe que eu o odeio, porque ele deixou morrer aquela criatura aqui do lado, cujos seis filhos abandonados me vieram comer o meu jantar. Vai dizer-lhe o ódio que lhe tenho por ele deixar morrer aquele justo, que porser bom teve de se matar; diz-lhe finalmente que nada disto se deve fazer quando se é Deus. Que me odeie agora também porque eu dei o jantar aos pequenos que não o tinham;que me odeie porque a última camisa a dei a um pobre que quase ma roubou; que me odeie porque eu o castigo como no outro dia castiguei um velho que maltratava um cão. Anda,vai dizer-lhe que me odeie, que se avilte ainda mais se é capaz..A geração é de covardes e cada ano que passa está mais corrupto o mundo . (M.Gorki)Ah, não ter eu muito que dar a este pequeno miserável que me bate agora à porta,para que ele me chame o mais vil que o sol cobre, o mais canalha de todos, o mais indigno,o mais bandido!Ele não se engana. Lá tem o seu raciocínio que não falha nunca.Dei-lhe tudo o que tinha e todavia vai a resmungar baixinho que um dia, um dia quevirá cedo, me virá bater à porta com uma coronha e me há de fuzilar a mim, o maior dospatifes que o socorri.Vai-se embora a pensar que se fosse rico, havia de azorragar toda essa ralé que pedeesmola e toda aquela que dá tudo o que tem.E cisma em ser um dia o maior dos Neros que o mundo tem visto; em ter um chicotecom que possa de uma só vez azorragar a Terra, ele, cujo corpo deveria ser balançado nocandeeiro ali defronte.De trinta mendigos a quem dei esmola hão de nascer noventa patifes para me apedrejar.Abençoada esmola! Mas explica-se. É que a minha esmolaesmola humanafecundalá dentro todo o meu cinismo e toda a minha canalhice.Deste-me esmola? Muito bem, odeio-te. Odeio-te porque não posso também daresmola e porque me curvei a ti. Toda a vida tu me fizeste bem, socorreste-me, agasalhasteme.Um dia eu mau como sou estou por cima. Então eu havia de perder a ocasião de mevingar de tudo o que tu me fizeste? Chegou o meu dia. Agora, meu velho, eu sou maior,ouves? Eu dobrei-me e tu socorreste-me, mas eu dobrei-me. Eu era um faminto e tu sentaste-me à tua mesa, mas eu dobrei-me. Tive fome tu encheste-me, tive frio tu agasalhaste-me.Irritante Tu, sempre Tu.E eu não podia vingar-me, mas agora chegou minha vez.Acredita que todos aqueles a quem fazemos bem nutrem lá dentro a secreta esperançade um dia nos correrem a pontapé. Logo no primeiro dia em que não temam desconjuntara bota quando o fizerem, percebes? Escutaste? Vem, se te sentes com forças. Demais és pobre. Então para ti a vida é tudoisto e tudo o mais que tu tiveres coragem de inventar. O pobre será odioso até ao seuparente mais chegado (Provérbios, XIV, 20), que não merece carinhos quem não tempara caldo (Silva Pinto), ouves? Tu virás e triunfarás. Tu serás mau e cínico e traidor.A Vida? Seria loucura, na verdade, conservarmos alguns sentimentos compassivosquando vivemos em semelhantes cavernas . (M. du Camp)A Vida é uma canalhice, uma farsa, uma luta brutal , como diz Tourgueneff.

Carta II

Foi em Dostoiewsky que eu encontrei um dia esta frase: No fundo de cada um dosnossos contemporâneos residem latentes os instintos de um carrasco!Não tens tu encontrado, ó caricato, nas tuas horas de angústia, somente semblantesfrios, corações empedernidos e ouvidos cerrados? Quantas vezes perguntaste onde estavama Bondade humana, a Justiça humana? Quem te respondeu? Inútil pergunta.Ninguém.Deus? Onde estava Deus?Deus não é deste mundo! E cada dia que passa me convenço mais que nele só canalhasexistem. Quem sou eu? Um canalha. Quem és tu? Um canalha.Todos nós disfarçamos os piores instintos. Inútil mascarada, se todos nos conhecemosbem.Tenho ouvido mais juras sem fé do que de minutos tem um século. Tenho vistomais traições, mais egoísmos e mais crimes que de mortos tem a eternidade ou de beijostem levado o corpo de uma prostituta que envelheceu no ofício.Filhas do homem, mães do homem, foi para ele que todas essas mulheres se prostituíram;que elas dançam cancans infames e sofrem abandalhamentos sem nome.O seu corpo, onde todos bolsam o seu quinhão de infâmia, é como os mármoresdivinos dos museus, toda a gente lá vai pousar o olhar. Tem alguma coisa de uma sentinaou de um confessionário.Elas é que sabem por quanto se compra um riso. Quanto império, quanta vontadenão é precisa para no meio de uma carícia não cuspirem à cara de um canalha. Filhinho,filhinho… , e aquele pedaço de belo lixo rebusca frases, prepara gozos requentados, pedidossem cerimônia como se eu lhes arremessasse à cara uma baforada de fumo de cigarroou lhes salpicasse o rosto com o meu hálito cheio de lama.Elas ali são minhas, muito minhas. Paguei-as à hora como a corrida dos cocheiros. Eo gozo, o gozo brutal, o gozo Deus, fere-me a retina, fricciona-me a epiderme, abraça-me,deslumbra-me e puxa-me para si com seus pulsos de aço como uma amante no cio.O vício tem recantos como uma cidade à noite.A quantos já teria pertencido aquilo? Quem seriam? Tateio. A carne, esta coisabrutal cheia de veias, de nervos, tendões, glândulas e ossos, cheia de instintos e misérias; a14carne que sua e cheira mal; que se desforma, se infecta, se ulcera, se cobre de gelhas, depústulas, verrugas e pêlos (d Annunzio), é mole, viscosa, flácida.Parece moída. Quantos a terão beijado? Quantos a terão acariciado? Quantos lheterão batido, quantos?O pobre corpo nu corre a roda toda como um copo numa bodega, amarrota-se, enlameia-se. Toca-me a vez: os mesmos abraços que dei à minha noiva, os mesmos beijos quedei à minha mãe dou-os agora a esta. Isto é lógico.Vender o corpo é melhor do que vender a alma, mas vender a alma e o corpo comoseria bom!Mulheres honradas? Ah, tu crês em mulheres honradas e homens bons? És parvo.Todo o homem atraiçoa e toda a mulher falseia. Todos mentem. Mentira é o céu, o infernoé mentira. É mentira Deus, é mentira o Bem, o Amor e a humanidade.Em que acredito eu? No crime e no dinheiro. O crime é Deus, o dinheiro é Deus, ede ambos o dinheiro é maior. É por dinheiro que se compram almas, por dinheiro é que asmulheres se vendem. Quantas almas não conterá um saco de dobrões, quantas? A quantoscorpos não poderia ele despir?Por dinheiro tudo se compra. As bençãos das santas e o crânio dos heróis, a camisade dormir da tua noiva e o rosário do teu confessor. Ciganas e écuyères, saltimbancos emendigos, fidalgos e aguardente, trapeiros e sacerdotes, coveiros e apóstolos, santos e famintos,sultanas e cadelas, bobos e cortesãs, escravos e libertos, tudo isto é da sua coorte. Opróprio Deus, o próprio céu rende-se, quando se lhe mostra um punhado de ouro.E como o dinheiro ri! Tu nunca ouviste o dinheiro rir? Despeja um saco de ouro eouvirás uma gargalhada. O som do ouro que se choca é o seu riso, e esse riso a quantos nãodespedaça a alma?!Quero que mates teu irmão, que dispas tua irmã na praça pública, que esbofeteiestua mãe. Chego-me a ti e digo-te: Ouro, terás muito ouro, um grande deboche de ouro se ofizeres. E tu não resistirás, eu sei-o.Uma prostituta não é ninguém. aquela que se dá aos marujos e aos ladrões, à noite,nos recantos, levando-lhes a sua carne para que se saciem, vale tanto como a que se dá aoministro, e a que é cortesã do Papa. A vida das primeiras é mais suada.Como elas devem odiar as mães.Pobres mulheres? É uma vida como qualquer outra. A da esfregadeira, a da mulhera dias, a da amortalhadeira não pesa mais, não custa mais?Aquilo rende, aquilo ainda dá muito dinheiro.Porque não trabalham? É boa! Então quem me havia de aturar a mim, a ti, a todo omundo, a todos os canalhas? Quem, não me dirás? Tua irmã? Tua mãe?15O crime é um negócio, a Vida uma escravatura. A alma é escrava do crime, a carneé escrava do gozo.Morrem? Que temos nós com isso? Todos nós temos que morrer. Quem se lembrade uma prostituta que morre? Os corpos perdem-se na terra e no esquecimento como asblasfêmias se perdem no ar.A Vida é uma grande cama onde existe sempre a plena orgia da carne. Lá passam asnoites uma rameira abraçada a um poeta, um bêbado no peito de uma marquesa que empobreceu.É o panteão ignorado dessa carne infame que o homem chicoteou com beijos. E nãosei, como de cada um, assim amassado em lágrimas, não floriu uma chaga, tanta peçonha eamargura eles continham. É a sarjeta onde se escoa a lama da Vida, para onde a terra baba anata da podridão.A Vida é feita de lodo e os homens do pó do crime. Tudo é lama e toda a lama éigual. A que salpica uma toilette de seda e a que traça constelações nos trapos das mendigas.As almas são de lama, as rosas são de lama, os lírios são de lama, como as estrelas,como as hóstias, como os mortos, como os vivos. Há a lama vestida de pérolas e a vestidade escrófulas, a lama toucada de sedas e cetins e a vestida de crostas e farrapos.Mas é tudo a mesma impureza, tudo a mesma podridão. Tão impuras são as vestesde Messalina como a escova de dentes de Gautier, as ligas de Agripina como a cama deRigolbeche, e tudo isto como o manto da Imaculada Conceição.A diferença que vai daquele bandalho, que passa de chapéu alto, àquele malandro,que pisca os olhos e pede esmola, não é nenhuma. Pura convenção. Se tu fosses buscar umarameira de hospital e a toucasses de sedas ela arranjaria coorte.Viriam a seus pés os famintos, as rascoas, os interesseiros, os honrados, os banqueiros,o mundo todo.Que me importa que a imagem desta libra seja a de uma rainha ou a de uma prostitutase com ela eu posso compra-las ambas?Tudo é dor. A dor é igual. Senti-la maior ou menor é diferença dos nervos que asentem, como a grandeza dos que a vêem. A dor é egoísta como o mundo. A dor da mãeque perdeu o filho é egoísta. São os lamentos pela felicidade que perdeu. Como a da águia aquem roubaram os ovos, como a do avaro a quem roubaram um dobrão, como a da Virgema quem roubaram Jesus.Tu já leste Os Homens do Mar , de Vítor Hugo? Recordas-te da pieuvre? A dor é apieuvre. Enlaça os corpos, as almas, suga-as, bebe-as em vida. A alguns deixa apenas oesqueleto.A águia que rói os fígados a Prometeu não é outra senão a Dor. Bendita seja a Dorque tiraniza e leva ao crime.Tudo é mentira, tudo ilusão. Quem sabe lá quanta podridão levedou para dar umarosa, para abrir um malmequer, e para florir uma chaga? Que as chagas o que são senãorubras e esquisitas flores?16Abre um crânio e vê se distingues a alma de Dante da alma de Caim, a de InocêncioIII da do galego da esquina.Quem distinguirá lá embaixo no ventre da terra a carne de Impéria da carne de Chénier,a ossada de Gilbert da ossada de Ravachol?O rosto que ri não é o mesmo que chora? A boca que canta e ri não é a mesma queameaça e insulta, que suspira, que geme e que reza? Os olhos que vêem Deus e o Diabo?As almas não servem a ambos, atraiçoando ambos?Vê quanto pus encerra esta palavra: Amor! Tu crês no Amor? Na Amizade? No teusemelhante?É preferível ver um cano de esgoto em toda a sua porcaria a uma alma em toda a suaintimidade. Há almas cuja treva é maior que a noite, consciências cuja lama é maior que ade todos os pântanos da terra.Cada homem dissimula em si um trágico carnaval. Murger disse algures que a Vidaera uma máscara de forçados . E se pudesses fazer cair a máscara que cada um afivelarecuarias de terror.À face da terra o homem não tem feito senão mal. Foi ele quem inventou os tronos eos altares, que fez a Verdade e a Mentira. Que inventou o canalha que governa e o que sofrea sua até morrer, que inventou a guilhotina e a glória, o deboche e o dinheiro.Sobre cada ventre pesa uma maldição, sobre cada berço pesa uma agonia.Há mães que à hora da morte amaldiçoam a sua obra. Benditos os que amaldiçoam.O ventre das mães é o embrião do crime. Barregãs que o desejo ensandeceu deviam serrompidas pelo ventre como o Senhor prometeu às emprenhadas dos povos pecadores. Quemaldito seja o ventre de todas as mães.Filhos fecundados em plena bebedeira, que bateis nas mães, que cuspis em Deus,que quebrais os santos e rasgais as páginas balofas dos missais, vede se na morte não soisiguais aos justos, se todos não são iguais na morte.Benditos sejam os matricidas, benditos sejam os homicidas, os perversos, os malditos.Bendito seja Orestes que violou a mãe, Amon que desflorou a irmã, Myrra que teveincesto com o pai.Benditas sejam as mães que matam os filhos, o irmão que mata o irmão, o canalhaque mata o canalha.Benditos os que matam porque eles semeiam a felicidade.Há caveiras que riem bêbadas de riso, outras que cerram os dentes de uma granderaiva. Nunca reparaste?17Enchi-te de desolação e abandono. Que eu exagero? Mas isto ainda é pouco. A torpezada vida não caberia em mil volumes como este. Que eu exagero?! Que eu exagero?!Patife, tu bem sabes que eu digo a verdade.Já viste quanto cômico há na vida trágica e quanto trágico há na vida cômica? Há risosque são mais tristes que a tocha de um gato pingado, lágrimas que por mais que se queirafazem sempre soltar gargalhadas.As lágrimas choradas e que a terra tem bebido há 6.000 anos que o mundo é mundodavam um novo dilúvio capaz de afogar o mundo todo. A luz do sol tem visto mais podridõesque o mármore de uma casa de autópsias.O que é a vida? Não sei. Eu tenho visto nela muita torpeza e muita lama. Sê mau,ouves? Sê mau. Tens que ser mau que a terra vive do mal .Às vezes sinto-me fatigado de só o ter sido mediocremente.Ah, eu nunca poderei vir a ser um Nero! E Nero que incendiou Roma não é bemmaior do que São Francisco de Assis? Incendiar uma cidade é bom, mas incendiar o mundo?Incendiar o mundo, ó gentes? Que grande obra para um caricaturista! A lama a nãoquerer morrer, a fugir do braseiro…Nessa hora, pensa, quanta sinceridade não haveria… no egoísmo do salvamento.Que de crimes essa última hora não conteria.E o fogo, o fogo enorme, lambendo tudo, triturando tudo, por entre o rir das labaredasaté que a terra desfeita em cinza, como um bando enorme de andorinhas, voasse peloespaço através dos séculos.

Carta III

Lembras-te de quando eu te dizia que a Vida era má, tu responderes que aindahavia o Amor ?Convicto ainda sonhavas a vida grande, auroreal, sadia, junto de uma mulher quefosse o corpo do teu corpo, a alma da tua alma e para quem tu fosses sempre o insaciáveldos seus encantos, das suas frases, dos seus beijos.A cada desilusão que te desse a vida tu te refugiarias nesse, turris eburnea tão alta eforte que poderia olhar as estrelas frente a frente, e que nem a morte ousaria derrubar.Ela, a Eleita, te daria então um encanto novo para cada desengano, para cada desânimote daria coragem na Bíblia nervosa e quente dos seus braços, no anseio louco e perfumadodo seu corpo.Seria a Santa do teu altar, a luz que iluminaria a tua vida inteira.Tu contar-lhe-ias os teus cansaços e ela te daria o seu colo para descansares. E tu seriasbom, altivo e amante. Serias forte para a defender, criança para adorares.Terias a cada frase dos seus lábios o coração em festa.Os teus beijos seriam abençoados, e ela, a Santa, seria bendita entre as mulheres.Quando tu tivesses sede ela te diria abrindo as veias: Bebe . Quando tu tivessesfome ela uniria à tua a sua boca e te alimentaria com o seu hálito caricioso e quente. Viveriasó para ti sem egoísmos nem vaidades.E seus filhos seriam belos como mulheres e fortes como Deuses.Isto é impossível. Onde encontraste tu uma mulher que amasse alguém? Inútil. Procurariasem vão. Uma mulher é um objeto que se usa e se põe de parte ao fim de uma hora,de um dia, de uma semana, de uma quinzena, de um ano quando muito.A fidelidade aborrece. Mas há acaso alguma mulher fiel?Em que pensam elas? No interesse. Todas se vendem. Umas compram-se por amor,como outras se compram por dinheiro. Varia muito o preço por que uma mulher se entrega:uma moeda de prata ou um colar de pérolas, uma nota de banco ou um adereço, uma ceia,um reino, um capricho, um cigarro. Eu já tenho comprado mulheres por um cigarro.E o que é o amor? Uma triaga deliciosa, não é verdade? A mais podre das ilusões.19A mulher é sempre uma criatura vaidosa e interesseira, balofa e irritante, como oshomens são e serão sempre cínicos, canalhas e traidores.É a maior das egoístas do gênero humano. Seus lábios são uma ânfora maldita quetem no fundo a mentira. Eles derramam o crime, a covardia, a perfídia.Seus ventres são sementeiras de dores . (Eugênio de Castro)Mas porque gosto eu tanto delas?Toda a vida me acorrentaram à cadeia de beijos dos seus braços. Assassinaram-me aenergia. Tornaram-me à força de desgostos e de irritações, eu que era uma criatura de pequeninascarícias, de mil afetos pequeninos, de pequenas coisas amorosas, embotado e secocomo as plantas que morrem à míngua de água. Amei rude e loucamente, com fé, com ardor.Fui desamado sempre, escarnecido, pisado.Quando eu amava, rouco de dizer o meu amor, não encontrava um único coraçãoque se me abrisse. E então, conheci más todas as mulheres.Mas como hão de elas amar-me se eu lhes não posso dar ouro? Que tenho eu paralhes dar? O coração? E para que serve o coração? Acaso isso já serviu a alguém?Não encontrei nunca uma mulher que não roçasse a espinha pela minha bolsa, comoos gatos quando ronronam aos pés do dono.E todo aquele meu passado amor, toda essa afeição foi como um charuto caro quealguém esqueceu aceso. Hoje não amo nem creio, como Schopenhauer.Não é porém despeito tudo isto. Eu continuo a cair nos braços das minhas amantes,mas julgando-as o pior possível.Quem ama morre. Chi no stima vien stimato , diz o provérbio italiano. Por issodespreza os homens como desprezas as mulheres. Ai se acreditas! A mentira no amor étudo.Quanta mentira não há num beijo? Quanto veneno? Quanta traição? Um beijo envenenasempre. Alguns há que envenenam a vida inteira.A mulher leva ao degredo, ao crime, à morte, à desonra.Há homens que se matam por elas, que se arruinam, que enlouquecem. Dalila atraiçoouSansão, Margarida perdeu o velho Fausto.Foi ela que inventou o ciúme para nos roer, os braços para nos prender, o dinheiropara se vender.Escuta! Se queres ser amado por tua mulher dá-lhe com um chicote. As mulheresprecisam de ser espancadas para amarem alguém. Há nisto um fundo de verdade. A pancadaé sempre mais sincera do que o beijo.20Mas para que amar? Para que bater? Todo o amor acabará na morte.O amor é dos romances. Lá é que viveram Romeu e Julieta, o apaixonado Rafael,Paulo e Virgínia. Trasladar o romance para a vida é uma loucura inconcebível.Enquanto o pobre D. Quixote quebrava lanças e corria mundo pela sua Dulcinéia,esta aquecia a cama todas as noites a algum cavaleiro menos andante e mais positivo.Uma mulher ama por egoísmo, e só gostará de enquanto tu fores para ela o máximoponto onde ela pode pousar os olhos.Se acaso a minha amante, essa criatura que tem para cada minha pancada uma carícia,encontrasse outro que fosse maior do que eu na sua retina psicológica, eu seria preteridosem dó nem piedade.Todas as mulheres são sensuais e perversas. Toda a mulher se esquece.Se tu desses a vida por uma mulher ela segredaria às amigas que tu nunca passastede um tolo que morreu por ela. E o teu nome andaria em triunfo nos seus lábios, como ocouro cabeludo de um inimigo na mão de um pele vermelha. Dias depois tu serias esquecidoe já outros braços teriam imprimido no seu corpo o vergão dos abraços. Quer ela fosseatriz ou freira, ladra ou imperatriz.Uma mulher é capaz de tudo. Não esqueças nunca. Algumas vezes, o grande mantodo heroísmo não serve senão para esconder uma meia dúzia de amantes . (d Annunzio)A mulher é um misto confuso, um amálgama singular de lama e de desejos, de sujidadese incensos, polvilhado de ouro.O que és tu em amor? Um Falstaff pandilha. Tua mulher o que é? Uma honradaMessalina.Antes de tu a conheceres e a arrendares de corpo e alma, tinha ela olhado aquele militarque além passa presumido; este estudantinho loiro; aquele caixeirola imberbe; os dentesbrancos deste, a cabeleira daquele, os pardessus e as botas daqueloutro.A sua alma fora uma hospedaria. Todos lhe convinham. Foste tu afinal o que ficaste.Nunca pensaste em que tua mulher cismasse em quem seria que a desfloraria se nãofosses tu? Quem seria? Que abraços o outro lhe não daria? Com que beijos loucos ele contariaas rugas do seu corpo?Todas as casadas ou são Terezas Raquim ou se chamam Bovarys. Todas elas traemo marido com o seu Rodolfo e o seu Leon como na Bovary, de Flaubert. Estes ainda por seuturno as atraiçoam e são atraiçoados.Pergunta a tua mulher se alguma vez que ela precisou de recorrer ao amante não teve,ainda como na Bovary, somente um riso ou uma recusa como resposta?21O Desejo é o Waterloo de homens e mulheres. A mulher que nunca se entregoucisma em entregar-se. A que se entregou cisma em entregar-se novamente.Toda a carne tem cegueiras de desejos a que ninguém pode resistir. É o Desejo quefustiga com suas unhas deliciosas a alma dos eremitas e faz pela calada dos claustros mortos,na paz silenciosa das celas sonolentas, ciliciarem-se mutuamente com seus corpos embrasa as irmãs da caridade.O Desejo é tudo. Irmão do Ouro tem com ele a sua genealogia do crime.O que quero eu da minha amante? O seu corpo nervoso que se estorce e se agita anteos meus braços e onde há tempestades de delírios, catadupas de beijos, explosões de luxúriascom arrancos de crucificada.Se ele, esse corpo que eu adoro e beijo, apodrecesse de repente, florisse todo numachaga aberta eu desprezá-la-ia. E seria para como o corpo dessas cortesãs da plebe, noivasde toda a gente, que todos possuíram ou podem possuir e no qual eu teria asco de tocar.Assim como na vida não há senão interesses, no amor não há senão desejos.É o Desejo que irmana a concubina da mulher honesta, o pobre do rico, o bom domau. Acaso a alcova de uma honesta não tem visto bastantes prostituições? Há rameirasque são mais sóbrias e mais recatadas ao entregar-se do que a mais honesta das mulheres.Cada criatura tem latente em si uma Sodoma.Todos nós somos iguais. Filhos da Luxúria, escravos do Gozo, servos do Interesse.Iguais no nascimento e iguais na morte.Um fidalgo nasceu tão desastradamente como um moço de restaurant. Ninguém diferenciarána morte um cardeal do seu fâmulo, um cabeleireiro de um palhaço, uma floristade uma arquiduquesa. Não somos acaso todos irmãos, ó meu irmão canalha?Da mulher do salão à mulher do esgoto há uma só diferença: a cama. A da primeiraterá uma coroa bordada no travesseiro. A da segunda será a cama de uma hospedariaonde todos passaram, dormiram, que de todos foi usada. A primeira terá meias de Escócia,mitenes de Suède, perfumes de Circássia. A segunda nem às vezes terá meias, terá as mãoscalejadas e grosseiras e cheirará a arrotos e suores. O amor da primeira é uma coisa levecomo um Watteau, delicado como uma porcelana cara, magnífico como uma renda antiga.O amor da segunda é uma mancha, brutal como um soco ou um borrão.Não é verdade que uma rameira se entrega a um ladrão e uma açafata a um príncipe?Mas há marquesas que prostituem os cocheiros, condessas que levam murros do criado,servilhetas que são as baronesas dos barões.Pensa bem. Não há crime nenhum que não tenha saído de um ventre de mulher, nemque uma cova não contenha.Uma mulher? Mas o que é uma mulher? A mulher é o gozo. Tira-lhe a formosura eo que te fica? Nada.22Mulheres honradas? Nem tua mãe!Tu sabes quantos adultérios praticou tua mãe para com teu pai! Nenhum. O quenunca, nunca tu me poderás dizer é quantos ela pensaria em praticar.Para seres feliz no Amor precisas de ser como na Vida: egoísta, seco e mau. Se nãofores infame serás imbecil. Se fores romântico, sonhador e amoroso, elas inventarão paracrucificar a tua paixão mil laços traiçoeiros, mil enganos, mil atrocidades.Se estimares tua mulher serás atraiçoado por ela, como se estimares tua mãe ela tedifamará. Sê orgulhoso? Uma mulher? Há tantas mulheres por esse mundo! Um amor?Tantos amores virão substituir este.As mulheres ou se castigam ou se desprezam. E se desprezares a tua amante, ela inventarácarícias mil para te apaixonar, te agradar, te satisfazer. A sua boca ardente carregadade beijos como uma árvore carregadinha de flor, tatuará no teu corpo uma legenda extraordináriade dedicações e de carícias. Sê pois canalha com as mulheres, que elas gostamdos infinitamente canalhas.Eis o dilema: beijava os pés a minha mulher e ela atraiçoava-me, bato-lhe e ela adora-me.No Amor, como na Vida, de quem é o triunfo? Dos fortes, dos que mentem, dos quebatem, dos que falseiam.Se queres ser feliz sê, como eu, brutal na posse, canibal na ambição, sem uma arestade apego a uma alma, pisando sempre, avançando sempre, crânio de sílex na energia, coraçãode sílex nas dedicações e nas torpezas.O Amor faz tantos crimes como a guerra. Foi por amor que a minha vizinha fronteiradespedaçou do quarto andar o corpo na calçada. Que este homem se deitou nos rails àpassagem do comboio. Que aquela costureira tomou fósforos e está no hospital. Que estoutrase meteu a freira. Que esta afivelou à rival uma máscara de vitríolo que o tempo nãoapagará.Foi por amor que este homem roubou a casa onde estava empregado e se matouquando lhe bateu à porta a polícia; que este outro, que tu não conheces, vem ter comigopedindo-me dinheiro para mandar um ramo à sua atriz, que o despreza, oferecendo-se-meem troca para matar um homem se preciso for; que este mancebo que passava todos os diasna minha rua, pensativo e tristonho, apareceu um belo dia enforcado no seu quarto; queaquele delirou de amor e acabou morto de frio numa rua. Que este homem se arruinou aojogo para dar à amante; que este matou e foi degredado; que este roubou, entisicou, está nacadeia ou no hospital.Isto ainda não é tudo. Há tragédias misteriosas, mortes ignoradas, casos frustes, que,se forem-se desvendar, aterrorizariam um comissário de polícia.A mulher é o crime. É mentirosa, é cínica. Mente por vaidade, crucifica por prazer.São os seus encantos, a carne palpitante, os cabelos, os beijos, os gozos que amolecem a23energia, a espinha, a cabeça, o orgulho e o dinheiro. É aquela chaga original, a vergonhosaferida sempre aberta que sangra e que cheira mal… (d Annunzio)Há homens orgulhosos que pedem de joelhos perdão às mulheres. Mulheres orgulhosasque sofrem em silêncio as pancadas dos maridos, dos irmãos, dos amantes.E como o amor tudo transfigura, das rameiras faz santas, dos feios faz belos e armaem fortes os fracos; livra-te pois do Amor para que não sejas desgraçado.Lembra-te sempre de que ele é a pior e a mais enganosa das realidades, a mais disfarçadadas ciladas.Ai de ti se nele acreditares! Quem ama morre, quem ama avilta-se tão baixo que aprópria lama tem ainda que descer muito para lá chegar.

Carta IV

Há uma tela de Rochegrosse intitulada Agoisse humaine. É um quadro que representaa vida. No primeiro plano muitas criaturas erguem o braço para chegar mais alto.Homens de casaca tão corretos como se fossem para um baile. Há mulheres decotadas vestidasem rigor. Homens condecorados e homens banais, velhos e moços, misturam-se e empurram-se, disputando-se numa agonia pavorosa, num combate sem nome.Aquele monte é a Ambição de subir de que fala Antônio Vieira. Atrás, pela ribaacima, numa escalada vertiginosa, aparece uma maré cheia de cabeças ululantes, estranguladaspela ambição, correndo, empurrando-se, pisando os que ficam, agarrando-se de pés emãos, como se após viessem também correndo numa perseguição fantástica, as ondas deum novo dilúvio.Todos daquela multidão ávida querem ser os primeiros. O lugar é disputado a soco,a murro, a dente. O caminho que na vida leva ao triunfo é uma cena medonha que maisparece a fuga de uma derrota.Todas aquelas cabeças têm o ricto de um Tântalo supremo. São gastas, cansadas, lívidas.Os rostos são pálidos, suados, cor de terra, um não sei quê de loucura e de pesadelo;os olhos brilhantes, emoldurados no bistre das insônias e dos tormentos, as mãos crispadas,rapaces, em foice, os vultos rembrandtescos. São ferozes e são cruéis.A tela é violenta e verdadeira. A vida é aquilo, assim enérgica, sinistra, brutal. Nãohá trégua, não há descanso. Cada um vigia sempre o seu vizinho, espreita se ele cai, e tripudia,espreita se ele sobe, e inveja-o.Há um homem de peitilho engomado e cabelo colado sobre as frontes que, sentado,morto, segura na mão inerte e suicida a coronha de um revólver.Um grande homem brutal, de camisola, pulou, destruiu o último tapume, frágil afinalcomo uma convenção, e continua avançando sempre.Toda aquela populaça, todas aquelas criaturas cuidam só em subir. A certa altura aMorte fixa-se com suas pupilas de aço, hipnotizantes, e elas caem, rolam, afundam-se láembaixo, onde as espera uma cova aberta, algumas sem terem chegado, outras que pararamfinalmente, levando nos olhos um pavor incerto, qualquer coisa de espantoso e indescritívelque faz parar o sangue nas artérias.Para cada um que tomba avançam mil. Trava-se um combate em que o mais cruel, omais forte, o mais canalha, é que triunfa. Nada de piedade nem de compaixão. Se não esmagaresserás esmagado. Não há tempo de olhar, nem de pensar sequer. Avançar seja comofor, custe o que custar.25A vida é dos de coração gelado e hirto. Amanhã é tarde, depois é impossível. Tudona vida é transitório. Tudo passa, tudo esquece. A criança será homem, o lacaio será senhor,o arbusto será árvore, o ontem será hoje, o bom será mau. Ai dos que param, ai dos vencidos!Aquela cena é bem a Vida, esta luta brutal e torturada que começa quando o sol seergue loiro e triunfante para só terminar às horas em que tudo parece desolado e morto.O crepúsculo cai suavemente. Ao longe a casaria branca de uma cidade adivinha-se.E as altas chaminés das fábricas atiram para os astros o seu fumo apodrecido e gasto comoum hálito maldito e desolador.* * *A minha casa deita sobre a cidade e sobre o mar. Lá embaixo ficam os seus hospitais,as suas prisões, as suas morgues, os seus cemitérios, igrejas, calabouços, penitenciárias,hospedarias e albergues, docas, oficinas e quartéis. Seus bairros magníficos e seusbairros pobres. Lá moram os que se embebedam e os que esmolam, os que têm dinheiro, osque não têm trabalho e os que se portam mal.Os telhados amontoam-se e o sol, que agoniza para lá da barra, põe grandes retalhosde ouro fulvo no agrupamento regular e caprichoso dos edifícios e moradias, afogueando ohorizonte num clarão de aurora.Balança-se no ar pesadamente uma fumarada espessa como um nevoeiro, feita demil suores, mil respirações, mil hálitos diferentes, desde o hálito do bispo ao do bêbado, doórfão ao do mendigo, do cocheiro ao do sacerdote. E como o fumo, paira no ar o Babel dosruídos, um rumor confuso feito do ralo das agonias ao estrupido das pragas, do das cantigasao das disputas. O ruído das máquinas que rangem, chaminés que resfolgam, peitos querespiram, olhos que choram, gargantas que soluçam, corpos que tombam. O desabrochardas violetas nos canteiros e das rosas nas jarras dos salões, sutil como um aroma, mistura-secom o ruído tamborilado e convulso, como um rufo de pandeiro, das carpideiras de enterro.Os gritos e as pragas dos vencidos baralham-se com as exclamações de triunfo dos vencedores.E quantas cidades tem o mundo? As cidades quantas almas? As almas quantas tragédias?Toda a gente tem em si a sua tragédia. As próprias coisas mudas, a lama, o pão e ovinho, a pedra da calçada, a labareda e a gota de água, o verme e a planta a têm.Pensaste alguma vez na tragédia de uma cama de hospedaria, na das enxergas doshospitais, na de uma ladra, de uma mortalha ou de uma camisa de rendas? Na tragédia dasbandeiras esfuracadas de mil batalhas, na dos afogados no alto mar, na dos violinos, na deum náufrago da Medusa ou na da princesa de Lamballe? Tudo é tragédia desde a tragédiado parto à tragédia do estertor.Quem poderá saber a que há na flauta de um pastor e no leito de uma rainha? A tragédiaque houve na alma de Vaillant o anarquista, e na de Tintoreto o pintor? A de Alexandreo grande e a de Sócrates o estóico? Na alma de Jesus e na alma de Marat? Quem sabe oque vai na alma dos clowns e na dos pescadores? Na dos loucos e na dos maus?26A tumba dos pobres, o carro celular, a vala, a serapilheira, o caixão, as costureiras,os vagabundos, as cigarreiras, os emigrantes, os degredados, os cavadores, os homens degênio, as que têm leite nos peitos, as que arrastam um coração sem amor, os ninhos abandonados,tudo, de tudo isto quem sabe a sua tragédia?E a tragédia das que têm livro as quais a polícia rouba e o amigo espanca?Hamlet cismou na tragédia da caveira. Quem cismará agora na cidade?O corpo de uma cortesã tem a mesma tragédia do que um prato de hotel ou um copode botequim. Por todos servido, por todos usado, o prato e o copo quando se partem o seudestino é o lixo. A mulher quando envelhece e morre, o seu destino é a vala. Não serãopois, copo, prato e mulher inteiramente iguais?Algumas vezes a tragédia é caricata, é pândega, dá vontade de rir. Mas nunca ninguémriu da que consigo arrasta.A cidade, como a vida, é ignóbil. Ali tudo se vende. Quanto custa uma virgindade?A glória? A fama? Um beijo? Uma alma? Um jantar? Um enterro?Quem é o senhor do mundo, senhor da cidade, senhor da aldeia, senhor do campo?O Dinheiro. É ele que faz cantar às almas as óperas da torpeza e do interesse. É essa lamabendita com que se compra o céu. Para o alcançar todos os dias o sol vê crimes inauditos ea humanidade se afadiga e sua e chora. Não há crenças, nem escrúpulos, nem religiões. Éaquela luta brutal da tela de Rochegrosse.A honra? A honra é uma fórmula. É pagar uma letra no seu prazo com dinheiro quese ganhou a traficar escravos; é ser torpe sem que ninguém o diga; é roubar sem que o roubadoacuse.Há mulheres sem honra que todos cortejam, virgindades imaculadas que todos desprezam.Religiões? A religião é uma comédia cuja representação já dura há séculos. Fez sucesso!É uma coisa fútil e extravagante que se parece com as histórias dos gnomos e dasprincesas encantadas. Quem a não tem, compra-a. para que servem os padres senão paravender a Deus por grosso e a retalho ? (E. Zola)Relicários, cultos, milagres, o céu, bençãos, mitras, báculos, tudo isto está em leilão.Quem oferece? Quem dá mais?Às vezes as religiões pregoam entre os homens o Bem, a Paz e a Igualdade. Mentira,tudo mentira! Olhando bem a vida lá está sempre no fundo a sua face austera e verdadeirauma Saint-Barthélemey.Que tragédia risível, grotesca, bizarra, medonha, sofrida, desesperada e lancinantenão é o mundo? A vida? A cidade?27Lá embaixo nas vielas sujas ou no boulevard caro, a luz do gás, que baila a dança deSão Vito, põe lívida a carne, lívida a alma, lívido o sentimento.Há lá ruas inteiras de toleradas, ruas de loiras perfumadas de falas lânguidas comofúcsias, de morenas de beijos tão doces como medronhos, de ruivas de cabelos tão fulvoscomo o poente. São as filhas dos operários que espancam as mulheres quando chegam ànoite a casa, perdidos de bêbados; são as filhas de um ventre que não tinha nome e cujo paié toda a gente; são aquelas que tendo vendido tudo se vendem afinal; são a legião enorme einterminável das nascidas não se sabe como, paridas não se sabe aonde, as filhas das ervas,filhas da rua.Nos bancos sombrios do square há vultos enigmáticos, suspeitos, órfãos cujas almassão os imãs da desgraça de todo o mundo, e à esquina das ruas pedem esmola velhos patriarcaiscomo castanheiros centenários, filhas que fugiram aos pais pelos amantes que as abandonaram,pais que os filhos expulsaram de casa, mulheres que outrora foram belas efaladas.Embuçada num portal uma criaturinha esguia e franzina como uma santa, silenciosa,estende a quem passa a mão afilada e transparente e todos se afastam com rancor enquantoela lá continua, no olhar a nostalgia das que passam os dias a tossir.Há carnes nuas que o frio corta e a nortada arroxeia a par de equipagens arrogantesmais brunidas que a água cristalina; vestes roçagantes e suntuosas, arminhos e púrpuras,crachás e andrajos. Passeiam na mesma rua a majestade e o andrógino, a bêbada e a duquesa,e encontram-se muitas vezes no mesmo olhar os olhos que são alvoradas e os que sãocrateras sempre em perpétuas erupções de lágrimas.E na sombra, há criaturas emagrecidas pelas privações, recantos sinistros de infâmiaonde a luz debuxa, às vezes, a traços esguios e esqueléticos, uma caricatura que em lugar derir faz arrepiar; há gestos de revolta, meio esboçados, repelentes, grotescos, divinos, punhoserguidos, caras crispadas, criaturas capazes de agatanhar os pais e lhes arrancar os olhospara castigo de as ter feito vir ao mundo.E pensa a gente se foi só para todo este lodo, para esta amargura, que sofreram todasas mulheres as dores do parto.Bizarramente, ao longe, silenciosa e erma como um túmulo, esgarça-se a brancurade uma casita abandonada, e mais distante, na solidão de uma encosta verde, umas árvorescom o seu reumatismo eterno, descarnadas, com seus troncos como aranhas monstruosassão tristes como a noite e como a desolação.O sol agoniza e a sombra que desce lentamente amortalha a terra com o seu mantofunerário. Depois surge no céu a lua, muito grande, branca como a face de uma defunta ouensangüentada como a cabeça dos guilhotinados. Então por toda a terra se eleva o choro dasribeiras soluçantes, o cicio longo das folhas que se abraçam, enquanto distante um ou outrogalo perdido solta o seu grito de alarme como o das sentinelas à volta das prisões.E eu, debruçado sobre a cidade, escuto o seu respirar e sinto elevar-se da treva densaque abraça o mundo, num surdo formilhar, o arfar de mil opressos peitos que mal respirame que semelham o ralo estertoroso de mil agonizantes.

Carta V

Pratica sempre o crime, consciente, refletido, dissimulado. Sê mau e faz sugerir aosoutros que és bom, sê sempre torpe dizendo-te honesto. Nada de violências. Hipócrita, cautelosoe sutil, conseguirás tudo, serás tudo, terás tudo. Uma hora de amor de uma casada,uma condecoração, um emprego, a confidência de um segredo que compromete, de umvício que avilta.Para isso é necessário saberes insinuar-te, que a questão está em ter manha.Dissimula rindo, ri ferindo. As tuas ambições, os teus egoísmos, os teus vícios e astuas qualidades, tudo isso se mascara. Chama-se fidalguia à ambição, ao egoísmo desinteressee ao vício honradez.É por convenção que eu te digo bom quando tu és um negreiro; honrado, sabendo-teinfame; amigo, quando tenho a certeza que, certo da impunidade, me esfaquearias no escurode uma viela, imperturbavelmente.O que és tu? Um egoísta. Egoísta nos sentimentos e na torpeza, na fuga e na vaidade.Tudo tu fazes por egoísmo. Se tu tivesses tanta fome como tua mãe e só tivesse umacôdea a disputar, tu espancarias a pobre velha para lha roubares. Vamos ao caso que lhadavas? Que preferias morrer de fome? Se o tinhas feito é porque isso te satisfazia, te enchiaa vaidade de morreres por alguém tu que és o maior egoísta que o sol cobre.(Um conhecido disse-me um dia:Tu vais por uma rua com teu pai, teu irmão, qualquer pessoa que te seja mais que aluz dos teus olhos. Ao meio da rua há um prédio em construção. Tu separas-te por qualquermotivo de teu paisejae ele vai andando. Quando passa pelo prédio, um andaimevem lá de cima despenhado e esborracha o velhote. Junta-se gente, tu chegas, e quando ovês num lençol de sangue, o teu primeiro pensamento serájuro-oE se eu venho comele?!…Eu concordei.)Que tu dás a vida por mim, que tiras da tua boca para dares à minha?! Egoísmo, tudoegoísmo. Se o fizeste foi porque isso te deu prazer e nada mais.Compaixão? Porque hei eu de ter compaixão de ti? Sofres? Muito bem. Mata-te. Amorte é a amante que te espera. Ela tem suavidades como nenhuma irmã, carícias comonenhuma mulher.Ela perdoa, redime e liberta. Ela, que é boa, te recolherá. Não terás fome, nem frio,nem fadiga. Não lembrarás ninguém, nem ninguém jamais se lembrará de ti. A mulher que29tu amaste continuará a passar à minha porta vaidosa e descuidada. Terá um novo amante aquem adore. O sol continuará a nascer e a morrer todos os dias, imperturbavelmente. Asterras continuarão a dar pão, os ventres a dar filhos, as árvores a dar flores. Os beijos, aamante, o pão, as árvores e as flores, tudo o tempo há de tocar com a sua mão gelada.Tanto desfaz um lírio como uma mulher, uma estátua como uma catedral. Júpiter osupremo, Brahma o criador, Baal o todo poderoso, Allah e Abraão, Ahasverus e Adonai, aBíblia e o Alcorão, assombros, religiões, cultos e profecias, revoltas e multidões, impérios eembaixadas, tudo ela sumiu e levou. E tudo, desde o frágil ao grandioso, tem o mesmo destino.Persistes em viver? Então dá-te isso gosto! E hei eu de ter compaixão de quem vivesatisfeito na sua dor?!…Intimamente tu não amas, nem crês!Que adoras muito tua mulher, e fugirias dela se lhe nascesse um cancro na cara!Em que acreditas? Em que pensas? Em que outro dia caia para que o seu cadáver tesirva de trampolim, em que outro suba para que tu o enganes.Chamo-te corrupto, e tu não coras. Esbofeteio-te e já não há sangue que te chegue àcara. Asseguro-te que se assim continuares será um impossível que não chegues a ministro,a gênio, a Rothschild, a cardeal, a marechal, a tudo enfim que já de pé humano foi pisado.Tu não nasceste para outra coisa. Matarás teu próximo quando ele te sirva de estorvo,matarás teu pai se ele te negar o pão que o estômago faminto reclama. Pesa sobre ti amais execranda maldição. Caim foi teu avô, Impéria foi tua avó, e tens dentro de ti a seivaimunda que faz nascer o louco e o assassino, o covarde e o regicida.O que és? O que serás? Lama que se transforma em cinza. Cada gota do teu sanguese mudará num verme, cada verme se mudará em pó!Nunca acordaste com a boca seca, a alma seca, sem lágrimas nos olhos e uma grandevontade de arranhar as chagas dos mendigos, envenenar a alegria alheia e sovar a mulherque dormiu contigo? Criatura irritada e irritante, tão seca como as folhas mortas que tombamna poeira dos caminhos!Perguntarás porque sou eu assim!Todavia eu tive mãe que me cantou para eu adormecer, amores por quem andaria arojo por toda a vida, amigos por quem daria o sangue dos braços.A mãe morreu e eu comi o pão que os parentes dão por esmola; dormi ao relento, aofrio, à chuva.Os amores mentiram-me, os amigos atraiçoaram-me. Fiquei só e seco. Para que nasci?Não sei. Que tenho eu a esperar? Nada. Hoje odeio. Todos nós odiamos. O VentoAhasveruserrante sem descansoquando passa ganindo pela amplidão, trazendo de longe oseu furor, também por certo deve odiar assim. O pobre odeia o rico, o velho odeia o moço,30o fraco odeia o forte. O ódio vem de pais a filhos, de avós a netos, das gerações passadas àsgerações presentes.Nunca te debruçaste na alma de um paralítico? Pois a qualquer momento que o fizesseshavias de o encontrar absorto na raiva de toda a humanidade não ter, como ele, a suacadeira de rodas.Este meu ódio decorei-o entre uma côdea que se come a um pontapé que se apanha;uma esperança que mentiu e um amigo que atraiçoou. Quando eu fui mendigo e quando fuiladrão, quando fui cocheiro e polícia secreta.A inveja é um crime. Todavia há quem inveje a dor alheia só porque ela passa mascarada.Passam os alegres, os banqueiros, os nababos e os simples, toda essa malta pícarados felizes diante da qual eu sinto a raiva fria e surda que acomete um eunuco diante deuma mulher nua. Será mentira que eles não tenham alguma dor? Todavia a Bíblia diz queninguém vive no mundo sem alguma tribulação, ainda que seja rei ou papa .Então aqueles malditos não hão de ter mágoas, nem sofrimentos?Quando vejo alguém sonhando, ter esperanças, todo eu me regozijo: chego mesmo afaze-las maior. Intimamente rio e espero. O tempo virá e deitará toda aquela caranguejolaao chão.Com que contentamento eu vejo à minha volta acanalharem-se as multidões; as injustiçasque se amontoam, as chagas que se abrem na carne batizada.Isto não acabará um dia?O que é a Fé? Uma burla. A Amizade? Uma servidão. A Caridade? Um crime.Não dês esmolas nunca. Dar de comer aos que têm fome é dar forças a quem nos háde espancar.Dando esmolas, fazendo o bem, sendo generoso, compassivo e bom, qual será o teufim? Rebentar ao canto de uma rua sem ter quem te chegue um caldo, não é verdade? Poisem vez de esmolas dá chicotadas, em vez de consolações dá pragas e más falas, que conseguiráso mesmo fim. Faz-te caridoso que irás dar com os ossos à tumba do hospital.No dia em que tiveres fome é inútil pedires, que nenhuma porta se te abrirá.No fundo somos todos secos, egoístas e sórdidos. Que me importa a mim que tu padeçase que chores, que os outros vivam ou que eles morram?Para me servir, eu sacrificar-te-ei sem dó, nem piedade. Não tenho pão? Roubá-loei.Para o conseguir, ai de ti se te atravessares no meu caminho.E a Lei? A Lei é uma covardia. Quem fez a Lei? Um evadido das galés.Com dinheiro comprarás um código inteiro de leis, os juizes, os beleguins, os papéis.31A Justiça humana é uma roda velha que ameaça ruína a cada momento. O azeite é odinheiro. Quando deixa de se azeitar a roda, esta enferruja e pára.Dinheiro, meu senhor e Deus! por ti eu levaria meu pai à forca ou salvava-o de lá;esbofetearia minha mãe, bateria em meu irmão, prostituiria minha irmã ou seria o pai deseu filho.Mas o Remorso, perguntas tu?O remorso é uma larva que ainda em vida se arrasta sobre os corpos. Muito bem.Sacode a larva.Sinto às vezes remorsos de não ter feito o mal. Há criaturas que ainda à porta da eternidade,erguem o punho como uma clava, para esmagar o mundo. Ah, como eu me rio!Os mendigos não têm coroa? Que a roubem. E um dia eles roubá-la-ão.Cada vez nos espoliamos mais uns aos outros. Não confies nunca. Não te abras compessoa alguma. Cada semelhante é um inimigo, em cada irmão há sempre um Caim; comohá um Judas em cada amigo. Acredita! Tu andas rodeado de traidores.No dia em que sentires piedade pelo teu semelhante faz estalar o crânio com umabala.Tudo se disputa. Somos um bando de corvos para uma caveira só.Sê corajoso. Olha quantos são para uma mulher, para uma taça, para um lugar.Até na minha rua uma pequenita, grácil como um anjo, sabe toda a cabala infame dodeboche e entra com os homens nas escadas a propor-lhes coisas desonestas, roubando assimo seu comércio àquela mulher fanada que nos espera à volta da rua para ensaiar seumelhor sorriso.O que é a Vida? Arranjar-se.O lugar na sociedade está na razão direta do caráter do indivíduo e da canalhice porele desenvolvida. Vê-se às vezes que os emolumentos do crime são ainda uma grande coisa.A vida tem que ser isto. E tu, escuta bem, nunca serás nada se assim não fores.Nada de sonhos, nem de quimeras. O sonho é a rede que a Vida deita para nos demorare nos prender. Ai dos que sonham, ai dos vencidos!A Vida é prática, metódica, decisiva. Os ponteiros do relógio do tempo não paramnunca. Deixa falar os outros que pregoam o Bem, a Igualdade, a Vida boa e grande.Não é o teu esforço que vai endireitar o mundo. Sê sempre mau, orientado, sabido.Tudo o resto são cantigas. A Vida é só uma e mesmo sem querer aflora-nos aos lábios aquelafrase verdadeira que Dostoiewsky põe na boca de uma das suas personagens: Eu nãotenho senão uma vida, não estou para esperar a felicidade universal!32Mas que queres tu, afinal? Que quero eu? Subir. Como, não importa. Acaso sabendoalguém que tem um meio de vencer se deixa derrotar?Mas ninguém se lembra de que louca não é toda esta ambição, todo este esforço, todaesta ânsia. A terra se alimenta de corpos, bebe lágrimas e bebe sangue. Um coveiro abriráa cova a outro coveiro; um dia sucederá a outro dia; uma dor virá precedida de outra dor;um carrasco decepará outro carrasco. E imutavelmente tudo assim continuará.

Carta VI

Como pode ser amada uma vida cheia de tantas amarguras,sujeita a tantas calamidades e misérias?BíbliaOs dias desta vida são poucos e maus, cheios de dores eangústias; neles se mancha o homem com muitos pecados, se enredaem muitas paixões, se molesta com muitos temores, se divertecom muitos cuidados, se distrai com muita curiosidade, se embaraçacom muitas vaidades; onde é cercado de muitos erros,gasto de muitos trabalhos, perseguido de tentações, enfraquecidocom delícias e atormentado com pobreza.Imitação de CristoSob a luz esguia e pobre do meu quarto de invejoso e odiado, tenho agora, à horaalta da noite a que te escrevo, um farrapo de jornal que, laconicamente, noticia o suicídiode um marçano de 15 anos, que deu um tiro num ouvido. E eu, sem mesmo querer, surpreendi-me a cismar na tragédia daquelas quatro linhas de jornal.A criança deu-se a conjeturar se isto valeria a pena. Encontrou-se farta de cismar ede chorar, só, escarnecida e pobre. Rezou. A mãe devia por certo ter-lhe ensinado orações.Ninguém a ouviu, ninguém a atendeu. Os homens eram mesquinhos e o céu era calmo eindiferente. Mas a Providência? Deus? onde estava essa camarilha ignóbil de profetas, devirgens e de milagreiros?E o pequeno herói, a quem a vida fechou todas as portas, teve então na sua lógicaférrea a dedução de que a única providência seria aquela bala bendita que, furando-lhe osmiolos, lhe levou a alma ao esquecimento.A batalha da vida só tem duas fases: ou vencer ou fugir, porque para os vencidosnão há piedade.O suicídio é lógico, é justo, é necessário. Para que se vive? Para sofrer? Onde existea verdadeira felicidade, a verdadeira Paz? Na morte. Ali os ímpios cessarão de tumultos eacharão descanso os cansados de forças . (Bíblia)E todos os dias, a todas as horas, a todos os momentos, a peregrinação à morte é tãogrande que faz pensar em que já não há, no mundo, vencedores.A tragédia do suicida, a sua história, é sempre a mesma. História trágica amassadade lágrimas e desesperações. Quer ela seja daquela costureira que cansada de lutar em vão,34meteu um fogareiro aceso no quarto e se deitou tranqüilamente; quer seja a do que se envenenecomo Chatterton; se deixe picar de áspide, num leito de rainha, como a amante deMarco Antônio ou se deixe crucificar como Jesus. Quer estoure o crânio como Camilo oucomo o marçano, ou, como a minha vizinha, se deita da janela à rua. Quer abra as veiasnum banho de perfumes, com a sua Eunice, como Petrônio ou se trespasse com a própriaespada como Saul; abra o ventre como um japonês ou beba aguardente com Poe, comoHoffman ou como aquele homem que eu encontro todos os dias avermelhado e balofo.O homem será sempre perseguido da dor. Não lhe poderá fugir, nem a poderá cansar.Ela irá com ele a toda a parte, percorrerá com ele todos os países, atravessará com eletodas as idades. Quer ele vá ao silêncio da Trapa ou à solidão das minas subterrâneas, tenhapalácios e odaliscas ou ande sobre a água dos mares.E qual será a compensação de tanta angústia? Qual será? Nenhuma.A vida só tem uma única alegria. A de morrer. Não disse Sólon esta verdade cemvezes confirmada: Nenhum homem se pode dizer feliz, enquanto respirar está sujeito aosofrimento ?Para que trabalhar, para que ser grande, ó tu que tens ambições e que te consomes alutar?Os homens superiores acabam tão vulgarmente como os imbecis . (E. Zola)Não traz cada rosto a máscara de mil dissimulações? Não tem cada alma a recordaçãode mil infâmias?Tudo na vida é engano, tudo embuste, tudo dissimulação.Que importa que tu trajes de holanda e de brocados, de sarja ou de burel, se debaixodessas roupagens o corpo é sempre a mesma carne imunda e desgraçada?A veste é uma máscara, a palavra outra máscara. O riso e o choro o que são senãomáscaras?Tudo no mundo mente. Para que foi feita a palavra senão para mentir? (Talleyrand)A palavra disfarça a alma como a veste disfarça o corpo. Ai de nós, se alguma vezdisséssemos a verdade!A vida é uma peça, e quem a acha má tem dois recursos: pateá-la é o meu caso;ou ir-se embora, o que é o caso dos suicidas. Suportar a farsa toda, lá porque a maioriagosta dela, um disparate! Os que se matam pagaram também o seu bilhete, e muito é quenão reclamem o preço à saída, nem incomodem os que se ficam a rir na platéia. (Fialhod Almeida)se infalivelmente a morte há de um dia parar à tua porta, porque não irás tu ao seuencontro? Para que queres dilatar de dia para dia o teu propósito? (Bíblia) Acaso amorte te faz pavor? Quem é morto não sofre nem pensa. Ser terra, ser rosa ou ser pó, quemaior aspiração pode existir? Quem sabe o que serei depois de morto? Que serás tu? Estrumeque fecunda a terra? Trigo da eira? Areia do deserto que o simum arrasta? Castanheiroou flor do campo? Excremento de ave, crânio de herói, beijo de imperatriz, sonhode cortesã?35Mas que importa que o meu corpo sirva de repasto aos corvos ou seja devorado peloscães, contanto que eu não sinta esta ansiedade louca que me devora e envelhece!Se há dias em que até me apetece ser verme!!!Para que serve a vida? a vida é o sofrimento e o único remédio está no aniquilamentodo globo e dos seus habitantes, pela ciência humana, conscientemente dirigida aesse objetivo. (Hartmann)Eu não quero nem posso mais sofrer. Mato-me. Quem se importará com isso? deixaráa terra de girar, os ventres de parir e a humanidade de sofrer?Quem condena o suicídio? A Igreja? Mas a Igreja pode lá condenar alguém?A vida é uma infâmia. Para que viver? E esta pergunta, cem vezes repetida, nuncaencontrou resposta. Que somos nós? Lama nascida da lama e que em lama se tornará.Nada sabemos e nada podemos. Todo o esforço é inútil, toda a dedicação perdida.Olhando bem o fundo às coisas, a Vênus de Milo não é a mesma coisa que a soleira daminha porta? A minha noiva não é a mesma coisa que aquela rascoa que bebe aguardente,fuma e leva as noites a cantar? As mulheres esplêndidas não morrem como os vermes? Eas feias, e as velhas, as sórdidas não morrem como as mulheres esplêndidas?Os velhos, os entrevados, as mulheres altivas quando envelhecem e se encontramsem adoradores, não serão a mesma coisa, elas que foram belas, amadas, orgulhosas, queum vestido de seda que se meteu a esfregão?Dirás que não. que a tua noiva é imaculada e a rascoa é impudica, que de uma à outraa diferença é tanta que não se poderá medir. Mas não foram todas as criaturas nascidasigualmente e não serão igualmente amortalhadas? Misturando as suas lágrimas quem aspoderá apartar? Baralhando as suas angústias quem as diferenciará?Que o suicida é um covarde? Não, covarde é quem atura isto até o fim. Então umacriatura que entrou na vida e se vai embora, lá por não poder ou não querer pactuar com atorpeza dela é um covarde? Então eu que piso, eu que falseio, eu que minto, é que devo serlouvado pela minha coragem? Covarde é quem covarde lhe chama. Pudesses tu ver bem avida e verias se o suicídio não é a única porta que o homem arrombou ao céu.No dia em que eu subi ao mirante do mundo estremeci de horror ao ver a luta quese desenrola todos os dias, de canto a canto, de pólo a pólo, do passado ao porvir. E dessedia horrível ficou-me na alma a impressão que, como o sarro às dentaduras cariadas, nuncamais me abandonará.Tudo no mundo são interesses e traições. Pois não é por interesse que Plínio vai aoVesúvio, Stanley ao sertão, Colombo à América? Não é por interesse que o soldado vai àguerra, que as mulheres dão beijos e abre campas o coveiro?Não é por interesse, finalmente, que o suicida procura o Nada donde veio?36Aquele que tu acarinhas e a quem matares a fome será o primeiro a fechar a suaporta para que tu o não importunes com os teus rogos, nem impacientes com as tuas lástimas.Nunca ouviste dizer à tua volta esta frase típica: Comer o pão que o diabo amassou?Há vinte anos que o como. E para qualquer parte que me volto encontro sempre omesmo desdém, a mesma solidão, como se todo o mundo estivesse gafo dessa gangrena demás vontades e rancores. Hoje estou seco como a charneca batida da soalheira.Para vencer todas essas dificuldades preciso de ouro. E ouve bem: hei de tê-lo. Aindaque para isso seja preciso matar um homem.Eu luto, eu sou forte porque tenho a Morte pelo meu lado. E querendo eu morrernem os homens nem Deus me poderiam impedir.Vê-se então que a Morte é um remédio e que ela vem em socorro dos destinos quesentem dificuldade em cumprir-se. (Michelet)Qual dentre vós, que ganhastes a vida britando o Sonho pela brutalidade dos outros,vos não surpreendestes cansadamente murmurando: Não quero continuar a viver umavida sem carinhos e sem fé; vou ter com os que morreram . (M. du Camp)A morte é a redenção, e aquele que se mata é sempre com razão que o pratica. Equando, alma blindada de desesperos, determina travar a sorte malfadada, pergunta-lhe láse ele crê em Deus ou no Diabo? Que ele seja donzel, baronete ou consolesa, cavouqueiroou gladiador.Toda a gente leva a sua cruz ao Calvário, diz a frase popular. Mas o que é certo éque muitos ficam esmagados ao peso da sua cruz.O bem-estar e a felicidade são pois inteiramente negativos, só a dor é positiva.(Schopenhauer)A terra é um vale de lágrimas . (Bíblia) Ah, quem pudesse terminar o mundo,quantas lágrimas não estancaria, quanta dor minoraria, a quantos tormentos não poria termo!Depois, não é uma covardia saber-se que tendo o remédio para tamanho mal se háde sofrer eternamente, às atenças de um Deus que não se comove e de um bem que não háde chegar nunca? Ver em cada rosto uma caveira e em cada riso uma careta? Palpar umcorpo e sentir sob os dedos o latejar de mil ignorados vermes? Nascer de um ventre e umacova nos aguardar? Ir do nada para o nada? Há lá coisa mais torpe?!Masperguntas tue Deus? Deus foi um egoísta. Padeceu por vaidade, sofreuporque lhe deu prazer, morreu porque assim o quis. Submeteu Lázaro à prova para lhe experimentara fé. Desconfiou, logo não é fiel. Ele azorragou, logo é sujeito à ira. Vingou-se,logo é tão baixo como nós outros. Homem e basta.37Que ele morreu para nos salvar? Não, para nos perder. Quem socorrerá agora a humanidade?De que serviu o seu sacrifício? Para que ergueu ele a sua cruz sobre uma pira decorpos ainda quentes? Para que fez ele dezenas de mártires? Pois não é um crime sacrificarassim inutilmente tantos corações? Não é um crime enganar tantas almas que ainda crêemnele?Mas que veio ele cá fazer? A morte já existia antes dele vir. O sofrimento não cessoucom sua vinda.E ele, o Deus forte, senhor dos exércitos e da guerra, aconselha-nos a covardia evende o céu pelo sofrimento.Queres ver Deus? vem comigo aos conventos, às igrejas, às catedrais. Que viste?Uma escultura que nem sequer te comoveu.Perguntas por ele? A resposta surpreendi-a eu, alta noite, de um bêbado filósofo:Eu bebo. Mas para que bebo eu? Para não sofrer? Toda gente sofre. Uns mais,outros menos. Morremos. O nosso destino é morrer. O homem nasceu para a Desgraça.Qual é o seu destino? Cavar a terra com o suor do seu rosto e com o suor do seu rostoabrir a cova em que o outro o há de enterrar. Desengana-te, meu velho. Se beber é bom,bebe. Em morrendo nem céu nem inferno. Então nunca mais beberás.Deus é pai de todos, mas só recebe os grandes. Deus havia lá de dar audiência aum maltrapilho?!E o bêbado resumia que, enquanto a humanidade aflita ergue os braços para o céu,Deus, sorrindo cinicamente, erguia meio braço e balançando-o fazia de lá um colossal eobsceno gesto para todos nós.

Carta VII

Há dias em que, se me perguntassem o que eu queria ser, responderia: Morto.Ide de país em país e perguntai de porta em porta: Reside aqui o contentamento?Sois felizes e estais tranqüilos? Em toda a parte vos responderão: Procura em outro lugar.Nós aqui não gozamos isso que dizes! Inclinai os ouvidos para as fronteiras! O vento trazvosde todas as partes rumores sinistros de desordens, de combates, de revoltas contraopressões brutais! (Max Nordau)Como os mortos devem ser felizes no seu esquecimento! Os dias vão e voltam, osanos sucedem-se, os séculos nunca param, e eles eternamente sorrindo-se indiferentes, nasua podridão.Só a Morte é boa, só a Morte é grande. Lá se esmigalharam em pó Cleópatra e VítorHugo, Paganini e Bonaparte.A Beleza e o Gênio, a Virtude e o Crime, o Egoísmo e a Abnegação, que pode issocontra a Morte? Reconhece-se a verdade da frase de Hamlet a dizer pelos séculos dos séculos:Palavras, palavras, palavras, nada mais!A carne mais bela, a alma mais nobre, o talento mais deslumbrante, que vale isso?Tudo ali esbarra como ante uma muralha formidável, tudo ali se afunda com numnaufrágio imenso.Não é a Morte que iguala pobres e ricos, bons e maus, majestades e sodomitas, carrascose coveiros, rameiras e virgens?É ela que há de fazer tombar, como uma flor que emurcheceu, aquela bela mulherque te escorraça e te despreza; é ela que há de fazer tombar aquele que por ser mais forte tepisou e afligiu. É ela que há de fazer tombar aquele que tu odeias, todos os que tu odeias,todos os que te pisam, todos os que te desprezam. Aquele a quem tu pediste e te serviu,aquele a quem tu pediste e te recusou, o que te amou e o que te bateu.É ela que há de levar um dia aquele homem brutal que bate na mulher que o sustenta;que há de levar aquela pequenina flor impura que em voz baixa vem à minha beira segredar-me luxúrias infinitas para que eu lhe pague o pão do seu dia; que há de levar aquelebispo cheio de paramentos e aquele ladrão cheio de comendas; aquela carne cheia de mazelase esta alma cheia de crimes.Foi ela que levou a mulher que te trouxe no ventre e a mulher que tu amaste. Osque passam as semanas enchendo de lágrimas o travesseiro, regando a gleba de suores, e osque passam pela rua felizes e engrandecidos como o sol. As crianças ideais como pinturas39de anjos, a miss loiras como os trigais maduros, as demoiselles franzinas como lírios e assevilhanas salerosas, todas essas mulheres divinas, todo esse amor, toda essa formosura.O seu reino é todo o mundo; as areias do deserto e a água dos mares, as almas e asflores, os granitos e os vegetais, e nem Deus lhe pode resistir.É maior do que o céu porque é infinita, é maior do que Deus porque é sempre boa.Bendita seja a Morte vingadora, a Morte redentora.Não há ouro que a compre, nem lágrimas que a enterneçam. Nem Salomão com todosos seus tesouros, nem Hércules com toda a sua força, nem César com todas as suasconquistas a fizeram parar no seu caminho. Com um gesto do seu manto faz ajoelhar osheróis e os covardes, os velhos e as andorinhas.Todas as cabeças brancas do nevar dos anos, todas as opulências das mulheres soberbas,brâmanes e esquimós, tudo há de, ao fim de um século, desaparecer silenciosamente.E todos os dias emigram caravanas para a Morte, essa rainha de trono opulento, que atéfaz morder o pó às águias e aos condores.Acredita! É somente a idéia da morte o regozijo supremo da minha dor e da minhaimpotência. Quando eu passo por essas ruas, encolhido e tímido, sinto uma alegria infinitaem olhar as mulheres que passam deslumbrantes e esqueço-me durante horas inteiras aidear os estragos com que o tempo as há de envelhecer e gastar, as doenças que as hão dedesfigurar, as aflições que as porão mais estragadas do que as amantes dos marujos e dossoldados. E vejo-as passar, vejo-as na retina mental, com uma alegria infinita, velhas, grotescas,feias, pandilhas, virem pedir-me esmola para eu lhes dizer, baixinho e sorrindo cinicamente:Não!E depois, a essa altiva que me despreza, a todas as que me desprezam, quando asvisse mais raras do que a lama, dizer-lhes a persegui-las com o meu riso, tornado tão cruelcomo o do ouro:Ó filha, ao que tu chegaste!Sinto então a alegria infinita de um velho soutener que vê a amante procurada.Há no Nabab de Daudet a figura grotesca e imorredoura de Joyeuse, O Imaginário. Lembras-te, não é verdade? Sonha, sonha sempre. A propósito de um nada, sonha queé feliz, que se vê contente, que tem dinheiro, uma vida toda quimérica, cor de rosa. Pois eusonho assim, mas sonho sempre o mal dos outros.Ah, com que alegria eu soube que fulano roubou, que aqueloutro morreu, se suicidou,está no hospital, foi preso ou bateu na mulher! Como a morte é grande, a morte vingadora,a morte que te vinga e que nos vinga a todos!Mas para que sou eu assim?Esforço inútil, se tudo é mentira refalsada, tudo ilusão. Amar? Para que amar? Beijar?Para que beijar? De que nos vale tanta aflição?40Uma criatura toda a vida se afadiga e sua e chora. Leva uma vida arrastada e miserávelpara que? Um dia a Morte virá que a leve. De que lhe serviram os seus cansaços, osseus suores, as suas fadigas e as suas ralações? Se tudo pára em nada, tudo em vento !(Camões)Gozar para que? Se até o próprio gozo se há de converter em fel!Não fecundes tua mulher para que teu filho não tenha que morrer; para que não venhaa ser nem assassino, nem mendigo, nem ladrão, se for homem, nem ladra, nem prostituta,ser for fêmea, e para que te não venha a bater nem a amaldiçoar. Para que gerar pecadores?(ShakespeareHamlet)Para que hás tu de levantar-te se tens que deitar-te novamente, amar se o tempo tefará esquecer, beijar se outro apagará teus beijos? Para que serve tanta fadiga, não me dirás?Há dor acaso que enterneça a Morte? De que valeram a quem morreu, tanta bondade,tanta paixão e tanta crença?Ah, meu velho, quanto inúteis foram a diplomacia de Talleyrand e os crimes de Tibério,a força de Hércules e a canalhice da minha alma!Ser belo para que? Ser bom para que, se a Morte leva tudo?!Não é tudo pó? Pó de mortos. Imagina há seis mil anos que o mundo é mundoquanta dor e quanta lama o vento não levanta já desfeita.Os vivos têm quem os atormente, os mortos têm o esquecimento.Para que vives tu? Qualquer dia serás morto e quem se lembrará de ti? Quem selembra de quem viveu há cem anos? Para que serviram as aflições a quem morreu? Se todosnós temos que morrer!…De que vale ter sido Alexandre ou Bonaparte? Ao coração que não chegava o mundoum túmulo ainda lhe sobrará.Ser morto, ser morto! Eles lá ficam tranqüilos na terra úmida onde a chuva os faz tiritare o orvalho os cobre de suor. Escutarão o ruir das catedrais e a cólera dos ventos? Quelhes importa a nossa torpeza? Que lhes importa que cá em cima estejam dias de sol ou diascor de chumbo? Não chegam lá à terra da Verdade, à terra da promissão, os ruídos e combatesdesta vida.Quantos crimes não tem a Morte no seu seio? Quantas tragédias? Quantos beijos?Quantos amantes? Quantas aflições?E quantas Marselhesas de raiva? Quantos Himalaias de ódio, quantos Vesúvios deindignação?Ó, meu amor, quanto deve ser bela a morte se lá tem caído tanto sonho e tanta beleza!(Júlio Brandão)41Onde estão silenciosas, as pastorinhas bíblicas e as crianças ideais, as horas de gozoe as carnes de alabastro, os faustos de harém e as misérias de enfermaria?E as patrícias de mãos liriais e finas, as esguias mãos tão sensuais e belas; as bocascoleantes como mordaças; os beijos estrangulados como soluços; as palavras de amor, aspreces de amor, as orações de amor? Os festins tão grandes que comiam rendimentos decidades; as legiões orgulhosas e altaneiras; os bárbaros ferozes das invasões; os legionáriosda Roma legendária e os heróis das Termópilas? A carne soberba da rainha de Sabá e asabedoria do Eclesiastes; a lepra de Jó e o sudário do Cristo; a carne de Pompadour e a detua avó? A dessa mulher que aí passou e a de todas as mulheres que aí passaram? A paixãode Marco Antônio, as horas dos amantes, os mármores e os pórfiros, as colunas de ouro eos escravos cor de âmbar? Os serralhos e os gregos estetas e corretos, os triunfos e as devassidões,onde estão? Onde estão?Onde estão as circassianas que dançavam as lascivas danças, os vinhos preciososque se bebiam com pérolas por ânforas de ouro, os bálsamos preciosos, os desesperos taciturnos,as angústias, as glórias, as paixões?O soldado deixa ali todos os seus troféus, o músico todos os seus sonhos, o rico todasas suas riquezas. Porque do mesmo modo que ele saiu nu do ventre de sua mãe, assimmesmo há de voltar, e não levará consigo nada do seu trabalho . (Eclesiastes)Os roseirais cobrem-se de rosas, os canteiros de flores, as árvores de fruto. Vemdepois o tempo, o batedor da Morte, e as rosas murcham, as flores secam, os frutos caem eapodrecem.Somos como as flores e os frutos.Comparaste uma mulher e uma rosa? Ambas nascem, e vivem e morrem. Ambastêm mocidade, e ambas têm velhice. E até o expirar de uma rosa tem alguma coisa do expirarde uma mulher bonita.Mas por que não morri eu dentro do ventre de minha mãe? Por que não pereci logoque saí dele?Por que fui recebido entre os joelhos? Por que me alimentei com o leite dos peitos?Não diria agora como Jó: Pareat dies in qua natus sun et nox in qua dictum est:conceptus est homo. (Cap. III, 3: Pereça o dia em que nasci, e a noite em que se disse:foi concebido um homem! )Não diria agora: Maldito o que algum dia me deu pão do seu pão e vinho do seuvinho; a mulher que me trouxe no ventre nove meses, que me deu leite do seu seio, beijosda sua boca e pão do seu suor!Penso então em quanta grandeza não há na obstinada negação desses ventres quenão fecundam nunca, dessas árvores que nunca dão flor.42Vaidade das vaidades, tudo é vaidade! Que proveito tira o homem dos seus trabalhosna terra? Uma geração passa e outra lhe sucede; o sol levanta-se e oculta-se no horizontehoje como ontem; o vento sopra do norte, depois do sul; os rios correm para o mar,e o mar nunca transborda . Assim falou o Eclesiastes. Mas de que valeram suas palavras?Tu sofres, todos te negam esmola, ninguém te dá carinhos, não tens amigos nem lábiosde mulher que te dêem beijos, uma amante que te ampare, ainda que falsamente, nastuas horas de febre, nas tuas horas de angústia, masó caricatotens a Morte, a Mortelibertadora, a Morte amante, a Morte caridosa, a Morte que te dará da sua paz eterna, serenae forte. É essa que te aguarda com o leito fofo à espera. Deita-te nos seus braços, sê poiso eleito dessaFunérea Beatriz de mão geladaMas única Beatriz consoladora. (Antero de Quental)Ser morto! Ser morto! Ventura estranha. Os mortos não sofrem, não têm amores,nem carinhos nem aflições…E, é tão feliz quem morre que, chegado à sepultura, tão satisfeito está com setepás de terra, como com as pirâmides do Egito. E se até essa pouca terra lhe faltasse diria,se pudesse falar, que a quem não cobre a terra, cobre o céu . (P. Antônio Vieira)

Carta VIII

Corri o mundo todo e por toda parte vi a mesma desolação, a mesma luta, a mesmatragédia.Vi as regiões misteriosas do pólo, embuçadas na sua neve, branca como as caveirase fria como a morte; vi as Américas dos pampas, dos Andes e dos dollars; a Rússia com assuas Sibérias e os seu frios, a sua Moscou dos czares, os seus popes e o seu Brezina dapassagem dos franceses, a China com a sua muralha, os seus mandarins e os seu letrados.Vi a Suíça alpestre e trabalhadora de lindos montes gelados; a Itália com os seusmármores, as suas músicas, os seus lazzaroni. Avistei o Vesúvio com o seu penacho gigantesco;debrucei-me sobre a Pompéia desolada. Vi a Índia com os seus rajás, brâmanes epárias, as suas magnificências, os seus elefantes e os seus séquitos mágicos. Fui até a Austráliaver os seus desertos ermos. Vi a brumosa Londres, a devassa Paris, a melancólicaLisboa.Vi as filhas da Germânia loira e as inglesas de Walter Scott; as mulheres bretãs e asfilhas da Normandia, as ciganas e as hotentotes, as esquimós e as egípcias. Vi as japonesasde Pierre Loti e as mundanas de Feuillet. Encontrei a Sapho de Daudet e a Gervasia doL Assomoir, de Zola, as românticas de Camilo e as pastorinhas idílicas dos Alpes, a Bovaryde Flaubert e as mulheres veladas de Constantinopla.Topei no meu caminho com lords, e senhores de palanquim, burgraves e salteadores,fidalgos e postilhões, gendarmes e missionários. Bebi os vinhos aromáticos de Chipre,pisei tapetes de Smirna.Li todos os poetas desde o Byron aventuroso, até ao Vítor Hugo catedralesco. Desdeo Dante o tenebroso, até Musset o delicadíssimo.Li a Bíblia e o Alcorão, decorei os versos de Leopardi e pensei em Rute, a moabita.Cantei os cantos de Homero e as canções de Beranger. Fui escutar à porta dos haréns paraouvir as cantigas orientais e o frêmito da carne sequiosa, perfumada e nua.Em Londres contei as suas cem mil prostitutas. Olhei Jerusalém, a triste, e o SantoSepulcro. Detive-me às margens do Jordão. Vi as nascentes do Nilo. Aspirei a brisa salinado Mar Morto, e medi as pirâmides do Egito. Vi a Pérsia do deus Sol e a Arábia do deusMaomé. Foi assaltada e roubada a caravana em que eu ia de peregrinação a Meca, a cidadeSanta.Quando fui ao pólo cismei na morte, ante o túmulo de Franklin; em Santa Helenasonhei na glória, ante o túmulo de Napoleão. Dobrei a passagem do Nordeste. Ante o túmulode Baudelaire rezei, chorei ante o de Vítor Hugo.44Conheci todas as carnes. Vi os mármores de Fídias e os afrescos de Miguel Ângelo.Ouvi Beethoven e ouvi os músicos vagabundos que não trazem um cêntimo na escudela.Vi a morte cem vezes e cem vezes a achei preferida à vida. Recordei todas as épocas.Conheci todas as fortunas. Fui mendigo em Espanha, barqueiro na Grécia, touriste nosAlpes, pirata na Calábria, Romeu em Veneza, lazzaroni em Nápoles. Em Paris fui pintor,em Londres vadio, na Índia nababo. Em Monte Carlo fui soutener, em Istambul trapaceiroe mercador de escravos em Tânger.Tive amantes entre as aristocráticas frágeis como vimes, entre as burguesinhas airosase carnudas, entre as camareras e entre as cortesãs.Vi mulheres de todos os países, homens de todos os caracteres, dinheiro de todas asmoedas, deuses de todas as religiões, trajes de todos os costumes, flora de todos os trópicos.Mas em toda a parte vi a mesma farsa, a mesma mentira, a mesma vaidade e a mesmatirania.Em toda a parte vi medrar o mal e escarnecer o bem; subir o forte e o fraco ser pisado.Vi sucumbir criaturas infinitas. Vi a Roma dos papas, a Alhambra e a Granada dasrecordações e o Gânges, o rio sagrado, retratou o meu rosto na sua corrente. Parei ao pé dasmuralhas de Bagdá, a cidade dos califas e das mil e uma noites encantadas.Dormi à sombra dos cedros do Líbano, perfumei os cabelos com óleos aromáticos eescravas sem conta embalaram-me o sono com o ritmar das suas gargantas.Passei no Cairo, amei na Trebizonda, rompi as mãos à cata de ouro na Califórnia.Milhares de vezes vi raiar o sol e o vi morrer.Dormi as noites perfumadas do Oriente, cheias de luar e de saudades. Vi todos osmares, fiz o cruzeiro de todos os oceanos. Exerci todos os misteres, vendi-me vezes semconta. Estou curtido de todos os desgostos e de todas as abjeções.Andei todos os pontos cardeais da Vida. conheço todas as falas, sei a forma por quese é canalha em todas as línguas. Subi onde podia subir, desci aonde não podia descermais. Sei o preço por que um homem se vende e uma mulher se despe em todas as moedas.Do meu nome não sei. Sou pária eterno, o eterno sofredor, o que padece, o que odeia.Sou só no mundo e abandonado. Não conheço dedicações, nem carinhos, nem amores.E como eu, há milhares de criaturas para quem o céu é ermo, a terra é erma, é ermo omar. Envelhecem entre a multidão com o seu rancor de famintos e oprimidos.A minha jornada foi maior que a de Ahasverus, o meu suplício maior que o de Jó, aminha torpeza maior que a de Judas, o traidor.Os homens olham-me com desconfiança, as crianças fogem de mim como da peste.45E a minha face lívida por todos os olhares encontra desdéns agressivos, piedadesirritantes.Sei que a Dor é cosmopolita e eterna; que a humanidade é má e traiçoeira; que aVida é uma coisa para que nem todos têm jeito.Espreitei a todas as almas e em todas elas vi um altar aceso a Torquemada. E deimea cismar se Santo Agostinho escreveria moral com uma concubina sentada nos joelhos,e se Sardanápalo seria devasso com orações entre o peito e a camisa.Encontrei todos os olhares, desde aqueles em que bóiam pedaços de glória como osrestos de um naufrágio aos olhos tristes das tuberculosas; olhares lascivos como vestessoerguidas, os raivosos e frios como a lâmina dos punhais, e os macios como o veludo; osolhos estalados da febre e dos suores, e os mornos como alcovas de princesas, ou os estagnadoscomo a água dos pauis; os olhos radiantes, os olhos auroreais.Encontrei risos de todas as cores, beijos de todas as qualidades.Conheço todas as raivas. A das aves que não têm ninho, a das almas que não têmamor, a das árvores que não têm fruto, a dos ventres que não têm filhos. E de tudo isto disse:Maldita a terra que dá o trigo, maldito o cavador que semeia o pão. O mundo é feito demaldições. As aves têm as suas guerras e os seus ódios, os peixes os seus combates, oshomens os seus rancores.Eu já vi no azul pleno do céu uma grande águia que tentava esburgar os olhos auma milhafre. O milhafre debatia-se mas a águia deitou-lhe as garras e arrebentando-o,desapareceu no espaço.Os velhos contaram-me suas histórias, as moças disseram-me os seus amores, mostraram-me os homens as suas ambições.Corri a terra das princesas levantinas, vi a guilhotina da revolução que caiu sobre acabeça heróica de Danton e que decepou a de Robespierre; pisei Austerlitz onde a águia dohomem de casacão alvadio, alma de dinamite cujo rebanho era um milhão de baionetas, selibrou até os céus, e Waterloo onde empalideceu a sua estrela.Vi como sucumbem os valentes e como morrem os covardes, e achei em ambos amesma morte. Vi que tudo era pó e nada mais. Vi as múmias dos Faraós, e das sete maravilhasdo mundo ouvi falar as gentes com saudade.Confundi-me com todas as multidões. E apesar dos homens serem mais do que asestrelas dos céus e as areias dos mares, não encontrei entre eles um que não andasse absortona sua dor e em trair o seu próximo. O homem não perdoará a seu irmão (Isaías), eesta verdade cem vezes a vi praticada. Como o Eclesiastes eu vi ainda e sempre a impiedadeno lugar do juízo, e a iniquidade no lugar da justiça , e como ele me convenci quedebaixo do sol tudo era vaidade e aflição do espírito.Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio de um festim, asporás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar.46Elas são de todos os pisados, de todos os escarnecidos. Dos que amaram e foramdesamados, dos que sofrem e dos que padecem. Dos que não tiveram ontem nem terãoamanhã. Daquelas horas de spleen que afogam como um baraço: daquelas noites sem fimem que a dor espanca o sono e de que se acorda sem se ter dormido.São para aqueles que batem inutilmente a todas as portas e em nenhuma lhes ouvirama voz. Para todos têm o seu luar e o seu conforto.Elas foram escritas naqueles dias de agonia pavorosa em que nos vem um desejoindescritível de ser lama, ser pedra, ser oliveira, qualquer coisa enfim que não tenha dores,nem tenha lágrimas. Nesses dias em que o ar sufoca e se sente para cada coisa uma aflição.Em que se entende no uivar da metralha, no rir da labareda, no praguejar do vento, e naraiva fria do mármore um sudário de lamentos sem fim.A vida é uma jornada. E todos os dias se anda um passo para a Morte.Que a Morte seja pois para ti se não soubeste triunfar dos vivos a tua única Venturae a tua única Aspiração.

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kntz @ July 20, 2008

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